No Veleiro à espera da maré

veleiro

Tinha para com o Luis Lacerda uma afinidade muito especial. Nunca falávamos daquilo que nos ía na alma. Penso que ambos tínhamos uma série de feridas para sarar. Tinhamos nascido práticamente no mesmo dia. O que tinhamos passado estava cá metido dentro. Parece que não precisávamos de falar sobre isso. Mas levávamos connosco as feridas de relações mal tratadas e carencias psicológicas. Disso não tenho dúvidas.

Naquele ano de 1968 sem sabermos bem porquê, estávamos como que  a dizer adeus ao tempo de criança. Não sabiamos o que vinha mas penso que já havia uma nostalgia e uma tristeza que se apoderava de nós à medida que essa despedida se aproximava.

Fumávamos cigarros da marca Porto e bebiamos cafés, que o dinheiro não dava para muito mais. A mim nunca me caíram bem as cafeínas e quanto à nicotina tambem o meu corpo quis rechaçar. Senti-me mal uma vez e o Luis comecou a destruir os cigarros que levava. Era sensível…

Quando não procurávamos a Rota do Sol naquele inverno que abria 1968 íamos para a praia e sentávamo-nos no Veleiro.

Geralmente só lá estávamos nós . Púnhamos a Jukebox a funcionar. Invariávelmente era o “Dock of the bay” do Otis Redding que girava. Essa canção sintetizava sem o sabermos o que estávamos a passar.

Look like nothing’s gone change

Sitting here resting my bones/ And this loneliness won’t leave me alone/ It’s two thousand miles I roamed/ Just to make this dock my home.

Now I’m just gonna sit at the dock of the bay/ Watching the tide roll away/ Oooo-weee, sittin’ on the dock of the bay/ Wastin’ time…

Luis3 around 1968