Tudo vale a pena se a alma não é pequena

As actuais tecnologias oferecem-nos enormes possibilidades de pesquisa e compreensão da história dos países e das pessoas. Escrevo este blogue e introduzi nele a categoria  família, para que futuros e presentes familiares saibam algo daquilo que foram os seus antepassados, como viveram e quais as preocupacões que possam ter tido. Não é minha intenção magoar ou ofender  ninguem. A minha ideia é mesmo a de informar duma forma interessante e abrangente o passado das minha gentes. Há sempre temas onde as ideias se cruzam e onde não há consenso. Penso nas questões de indole politica e religiosa. Muitas vezes,  desnecessariamente,  essas dividem as pessoas.

Isto não é um fenómeno de um país mas de toda a humanidade. Felizmente vivemos hoje na Europa uma situação democrática que permite a livre expressão e onde há liberdade de crenças e de ideias. Tive a sorte de viver esta democracia e aprendi a ter uma posição de consideração e tolerância por quase todas as pessoas mas com o direito de combater aquilo que são ideias e práticas que vão contra o respeito dos direitos humanos que tanto precisamos defender.

O meu pai disse-me pouco antes de morrer que me fazia lembrar o pai dele, o meu avo João Henriques Pinheiro (1880-1946), pelo seu pragmatismo e ideais. Se assim é orgulho-me da observação. Escolhi para titulo deste texto uma frase de Fernando Pessoa, grande poeta português, cujo apelido tem aparecido bastante nas minhas investigações familiares em Castelo Branco. Tudo pode, de facto, valer a pena quando se faz com boas intenções e sem medos ou como ele próprio também escreveu “Tudo é ousado para quem a nada se atreve”. Atrevo-me com as melhores intenções tratar dum tema que alguns preferem não abordar.

Quero aqui fazer o meu testemunho em relação à religião. Defendo as crenças de cada um desde que não tenham por objectivo, como já referi acima, posições ou ideias que contradidigam os direitos humanos. Há muita gente boa que pertencendo a diferentes religiões fazem grandes obras por ideal e dedicam muita energia para o bem dos outros. Pessoalmente acredito que o Estado como expoente da sociedade deve ter esse papel preponderante de apoiar quem precise. Daí as minhas convicções politicas.

Mas voltando ao tema da religião. Aqui na Suécia onde vivo há mais de 40 anos a igreja Luterana teve um poder muito grande sobre todos os individuos e quando achou necessário para proteger o seu poder de monopólio perseguiu outras crenças . O poder económico que detinham transformava-se também em poder politico.

Em Portugal foi a igreja Católica, dirigida por Roma, que o fez. Quando o poder politico do Estado se associou à igreja vitimaram-se e perseguiram-se imensas pessoas. A maior vergonha do mundo Católico penso que terá sido mesmo a Inquisicão e os crimes por essa perpretados. Em Portugal teve consequencias drásticas para a economia e desenvolvimento e talvez tivesse sido a maior contribuição para o atraso em que o país mergulhou quando o mundo rural e a posse de terras era o foco económico do país.

Descobri que uma parte dos meus ascendentes assim como os de Fernando Pessoa fará parte de um grande número de judeus que especialmente depois de serem expulsos de Espanha em 1492 se estabeleceram na Beira Baixa. Estes judeus foram em diversas fases da história de Portugal forçados a abandonar as suas crenças, expulsos, condenados à morte e executados ou fugiram para outras paragens.Muitos foram ficando. Aceitaram com maior ou menor convicção “mudar de crenças”

Numa altura em que os obrigaram a escolher mudaram de apelidos mas continuaram a viver as suas vidas como cristãos em muitos casos paralelamente como é o caso do que se descobriu em Belmonte onde secretamente se seguiam práticas cujos praticantes já nem sabiam da sua origem. Em Portugal ficaram designados como cristãos novos. Os indícios que tenho hoje sobre esses meus antepassados de serem de origem judaica são muito fortes. Os lugares, as profissões e os apelidos, assim como outros aspectos de convivencia que tinham com a igreja são elucidativos das raizes.

Li algures um texto em que um escritor judeu se lamentava do facto de se terem perdido esses judeus em casamentos mistos. Não é o meu ponto de vista. Terei oportunidade mais adiante de lançar alguma luz sobre estes antepassados e sua vidas lá para os lados da Beira Baixa.

 

 

 

Portugueses de Sundsvall

Muita gente sabe que os portugueses podem aparecer nos sitios mais reconditos do planeta. Decidi, de memória, fazer um pequeno e limitado relatório sobre a relação entre os portugueses e a cidade de Sundsvall na Suécia.

Provávelmente a primeira referencia terá sido o Joaquim Oliveira que andava embarcado nos barcos do SCA e por conseguinte passava pouco tempo em terra. Voltou para o seu Algarve mas acabou por desaparecer servindo este artigo tambem como um convite para quem souber dele enviar alguma informação sobre o seu paradeiro. Fizeram permanencia curta na década de 80 os filhos João e José.

Quando da construcão do hospital distrital tambem cá parou o arquitecto Luis Pereira hoje em Estocolmo.

Quem para cá veio e ficou fe-lo por ter conhecido alguem o que afinal é um motivo sobejamente universal para que as pessoas mudem os rumos às suas vida. Assim se passou comigo quando definitivamente vim para cá viver em 1973. Tambem por mesmos motivos cá apareceu ainda na década de 70 a Isabel Costa beirã da zona de Viseu que hoje é enfermeira e trabalha em Estocolmo nunca deixando de visitar Sundsvall. Pouco tempo depois apareceu a Manuela Pettersson que tendo conhecido o Lennart lá para as bandas de Coimbra aqui se estabeleceu e ficou, tendo já netos à sua conta.

Tambem a algarvia Guiomar Holmström veio mais tarde e casou-se com o Mikael trabalhando presentemente numa pré escolar.

O Herlander Sapage é outra história, veio mas sem nunca ter um relacionamento a 100% com esta cidade, trabalha e vive hoje em Luleå. A Graça Olsson esteve cá uns anos, foi para Estocolmo mas está de volta, já que o filho por cá ficou. A querida Helena Sequeira Svedin portuense e professora de linguas deixou-nos prematuramente deixando tambem filhos e o Björn que foi afinal o motivo que a trouxe para estas bandas.

Todos estes vieram pois conheceram quem os para cá trouxe. A minha mulher Patricia tambem veio por mesmo motivo trazendo os dois rapazes David e Daniel aos quais se juntou tambem o irmão Cristóvão Meneses.

Tambem há exemplos do contrário como é o caso do Miguel Varanda que hoje vive em Lisboa com a sua Malin.

A Catarina Conde trabalhava aqui na medicina mas já foi para outras paragens.

Com a aparecimento da Mittuniversitet dá a nossa cidade passos largos para a internacionalização que uma universidade sempre cria e desenvolve. Para estudar fotografia já por cá passaram o Nuno Perestrelo e o João Barata. Tambem mais recentemente o montijense Daniel Raposo e a investigadora Teresa Silva cá está agora.

Um simpático casal que durante um par de anos aqui residiu foram o Alexandre Vidal Pinheiro e a Rita que veio estudar design. Graças à ajuda do Alexandre tenho este blogue para comunicar esta interessante informação.

São dados incompletos em que basicamente me concentrei nas primeiras gerações. Quem quiser completar ou comentar fá-lo-á melhor escrevendo no próprio blogue para que se possam posteriormente encontrar estes dados.

A foto aqui publicada no topo  dá conta de convivio luso brasileiro em 1983.

A de baixo mostra uma geracão de portugueses mais recente.

 

Até breve

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Queridos leitores

Não publico nada neste blogue há quase um mes. Não deixei de querer publicar mas a verdade é que tenho tido que dar prioridade a outros assuntos.

Este ano aqui na Suécia é ano de eleições. Primeiro são as europeias e depois virão todas as outras em conjunto, nacionais, distritais e municipais, marcadas que estão para o dia 14 de setembro.

Terei com todos os outros meus colegas ativos que desenvolver um grande trabalho de informação que vai incluir bater às portas, fazer comicios de rua  e falar por telefone  aos eleitores.É um grande esforço que se nos vai pedir e que cumpriremos pois trazemos na base dele a força de acreditar nas nossas ideias. Tenho vindo a intensificar os artigos politicos do meu outro blogue com o endereço joaopinheiroblog.wordpress.com

Isto vem tudo para me justificar de não ter aqui publicado nada desde o passado dia 5 quando me recordei do Eusébio no dia em que faleceu.

Tenho muita coisa para contar e estou a tentar escrever um livro que será em grande parte autobiográfico. Trata-se de quatro jovens, ainda teenagers, que se encontram em Londres para mais tarde se reencontrarem volvidos 40 anos. Pode ser que consiga levar avante.

Procuro tambem literarura em portugues ou noutra qualquer lingua que em forma de ficção trate do periodo dos finais da década de 60 principios da década de 70. Se alguem me conseguir dar  alguma dica ficarei muito agradecido. Até breve!

O Eusébio

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Quando estávamos a viver na Rua A às Amoreiras era aquilo um beco sem saída no fundo da Rua Aviador Plácido de Abreu. Ao lado havia apenas um campo abandonado nas traseiras do quartel da Artilharia 1. Este campo onde brincava era conhecido como Campo da Aliança. Tinha-se lá jogado à bola e ainda havia havia restos de uma bancada de cimento. Foi aí que se organizou durante um par de anos uma feira popular e foi tambem aí que uma noite correu a noticia que estariam lá uns jogadores do Benfica, entre eles o tal moço que tinha vindo de Lourenço Marques, o Eusébio. Claro que o queríamos ver. Ganharam uma coisas nas rifas ou na tombola. Penso que o que iam ganhando ofereceram aos miúdos. Foi o meu primeiro encontro com o Eusébio.

Tambem visitava o meu vizinho Vicente Lucas na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Vimo-nos várias vezes na década se sessenta e sempre mostrou humildade e bons modos. Cacei durante esse período o seu autógrafo que aqui fica!

Ele tinha dez anos mais que eu. Durante muito tempo era Eusébio o único portugues que se conhecia fora das fronteiras de Portugal. Embora não tenha jogado naquele jogo amigável com a Inglaterra em 69 estava lá, e encontrei-o por casualidade numa loja do centro de Londres. Quando se lhe dirigia a palavra falava como se fossemos conhecidos.

Uns anos depois, já não jogava, veio integrado na comitiva do Benfica que fez o seu estágio pré época na Suécia. O treinador era o sueco Sven- Göran Eriksson. Organizou-se um jogo treino com a equipa local do Alnö. Foi e continua a ser um dos eventos desportivos mais importantes aqui realizados. Foi um agora funcionário do municipio de Sundvall que se encarregou da organização do evento. Segundo ele deu lucro e foi de facto um feito trazer áquele campito o grande Benfica. Infelizmente não estava cá por ter sido no período de férias. Tive pena e tenha a certeza que se assim não fosse teria tido a oportunidade de falar mais com o Eusébio.

Descansa em paz Eusébio!

Rescaldo do Suécia- Portugal

jogo

Rescaldo é o mesmo que esfriar…Esfriar de emoções e de algum nervosismo que pelo menos eu senti, logo que soube que nos calhava jogar o play-off contra a Suécia. Há que ver que se tratava de uma equipa bem embalada e confiante depois de no seu grupo só ter feito pior que a Alemanha.

O David disse logo -Vamos lá a Estocolmo. E ficou decidido. Havia que comprar os bilhetes para ficar na bancada dos portugueses. Através do site dos emigrantes e sócios do clube Lusitania de Estocolmo ficámos a saber que se compravam os bilhetes pela Internet na página da Federação Portuguesa de Futebol.  Como não tenho a nacionalidade portuguesa ficaram em nome da Patricia. Para levantá-los levámos autorização e documento de identificação dela. Tudo funcionou bem.

Como tinha que trabalhar na terça, só conseguimos ver a alternativa para chegar e voltar no mesmo dia, só indo de carro. É que são sensivelmente 4 horas de viagem que nos separam de Sundsvall. Ainda fui trabalhar de manhã e o David foi à escola. Saímos por volta do meio dia. Como nos disseram que a situação de estacionamento ao pé da Friends Arena é caótica decidimos estacionar em Upplands-Väsby ,nos arredores a norte de Solna e daí apanhámos o comboio.

Quando chegámos à estação de Solna eram umas quatro da tarde. Já havia muita gente, nomeadamente muitos portugueses. Demos logo com a compratiota Luisa Paulo, que se tinha mascarado de Pippi das longas meias portuguesa. A Luisa é uma pessoa que toma muitas iniciativas e organiza actividades para a comunidade Portuguesa de Estocolmo. A Luisa tinha marcado uns 60 lugares para os portugueses que quisessem comer e beber algo antes do jogo. Fomos para lá e pedimos uma Coca-cola.

 Foi o principio da confraternização que aí começava à volta da nossa seleção. Muitas vezes são os imigrantes quem mais se regozija com os nossos sucessos desportivos, remetidos como estão, anos a anos, a uma vida de trabalho longe de familiares e amigos de infancia, nem sempre considerados plenamente pelas pessoas que são. Após cerca de meia hora estalou um alarme, que em bom som, avisaou que havia um incendio no restaurante e que era necessário, urgentemente, evacuar as instalações. E assim fizemos começando a dirigir-nos para a arena nacional de futebol da Suécia.

Começava uma noite inesquecivel.

Montijo e Sundsvall encontram-se brevemente

 

forcado

Já aqui tive ocasião de referir o que foram os meus primeiros contactos com  os partidos Socialistas da Suécia e de Portugal. Logo após o 25 de abril de 1974 decidiu-se que uma germinação entre distritos de cá e lá se efectuaria. O partido Social Democrata da Suécia já era antigo enquanto que o PS de Portugal tinha práticamente acabado de nascer. Calhou-nos o distrito de Setúbal. Calhou-me a mim ajudar nas traduções e fazer de intérprete já que era o unico portugues falante em Sundsvall.

Terá sido em 1976 que recebemos cá a segunda visita. Veio o José Resina Bastos autarca do Montijo. Como tinha sido descrito que Montijo era uma vila com muita criação de suíno, visitámos uma unidade de produção de cá. Tambem visitámos a fábrica de peixe fermentado (surströmming) onde fomos recebidos pelo dono o Sr Oskar Söderström.

Mais tarde fomos excelentemente recebidos pela familia Bastos no seu próprio ambiente. Fomos lá a um sábado ou domingo, mas não me recordo já o ano, e após termos visto alguma coisa das actividades importantes do Montijo como a da cortiça foi-nos oferecido um  excelente almoço em familia.

Como era dia de tourada e o Vice-Presidente da Câmara, o José Bastos, seria o presidente do feito tauromático, fomos convidados para a tribuna de honra. Foi um evento muito caracteristico da região e muito especialmente as provas de valentia dos forcados ficaram-nos bem vincadas na retina.

Marcello visita Londres

caetano

O português ajusta-se bem ao mundo. É flexível e integra-se. Por isso temos portugueses espalhados pelos cantos do mundo. Além do mais gosta do seu país. Vibra com a sua seleção de futebol e com outros feitos desportivos. Orgulha-se da beleza do país e da sua cultura.

Na escola aprendi tudo sobre o heroísmo dos portugueses, país mais antigo da Europa, quase um mundo aparte. Heróis do mar, nobre Povo, aprendi a cantar ao lado do órgão do maestro Cruz no Colégio Valsassina.

Mas nem tudo estava bem. O meu contacto com a imigração dá-se em Londres quando durante alguns meses trabalho para o Banco Português do Atlântico, cujo escritório nas instalações do Banco do Brasil apenas tinha a função de encaminhar as poupanças dos imigrantes para as suas contas em Portugal para onde quase todos ansiavam retornar.

Em 1973, Portugal já levava um período de ditadura de 47 anos. Era o regime autoritário mais antigo da Europa. Era um país que já não nos podia orgulhar mas antes envergonhava. Com os índices de analfabetismo a rondar os 50%, uma pobreza gritante que obrigava centenas de milhares a procurar outros sítios para ganhar a vida, as prisões recheadas de presos políticos e uma guerra absurda para manter um Império Colonial. Éramos o país do pé descalço governado por sujeitos autocratas que queriam manter o país na ignorância e na pobreza porque um certo António Oliveira Salazar achava que a felicidade do povo era viver no campo e ir à missa. Ainda há pessoas que dizem que querem voltar a esses tempos. Não sei em que estarão a pensar…

É nesse ano em 15 de julho que Marcello Caetano faz uma visita oficial à Inglaterra com o intuito de celebrar os 600 anos de aliança Luso- Britânica. É uma visita acompanhada de manifestações e protestos. Não fui lá, nem sabia que tais manifestações se estavam a organizar, mas filmes dessa ocasião mostram Mário Soares entre os manifestantes.

É neste contexto nacional que volto a emigrar no ano de 1973 para a Suécia que tinha sido um país mais pobre que Portugal mas que tinha evoluído para uma das sociedades mais bem organizadas onde os seus cidadãos usufruíam de direitos sociais ímpares no mundo.

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