O escritório de Salazar

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Corria o boato em 1968. A informação corria da clandestinidade. Salazar teria caído duma cadeira no seu escritório da casa de verão. Muito mais não se sabia. Era uma notícia que esperançava o fim da ditadura do Estado Novo. Salazar nacionalista tinha a ideologia que estava na moda. Os portugueses tinham interesses comuns e basta. Só que a ideologia acabou na segunda guerra mundial na Alemanha e na Itália com a derrota.

Continuou em Portugal. Com consequências nefastas para o desenvolvimento do país. Sem alternativas democráticas o país estagnou nas guerras coloniais, na emigração, na pobreza e ignorância dos portugueses. Salazar era homem de brandos costumes. Escolheu como casa de verão em 1950 o forte de Santo Antônio da Barra, forte mandado construir no reinado de Filipe I para essencialmente proteger a costa de Lisboa.

Salazar caiu mesmo da cadeira e o que eram os seus aposentos até 1968 estão agora abertos ao público. O mobiliário já lá não está mas uma fotografia mostra como era o seu escritório. A câmara de Cascais tratou por cedência do ministério da Defesa que se recuperasse o forte, e ainda bem. .. Espero que continue a ser possível aos cidadãos de hoje e do futuro o poderem visitar.

Foto de Salazar lendo um jornal que deveria saber estava debaixo das garras da censura.

Urgeiriça coming to life

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The small mining village of Urgeiriça, and my first years spent there all came to life a couple of weeks ago. The mine has been closed since 1992 but has a history of 80 years during which thousands of workers got out some 1.6 million tons of usable mineral (mainly Uranium) and left behind another 2.5 million tons radioactive residuals.

My few years in Urgeiriça go back to the early fifties when my father João Manuel Pinheiro after completing his engineering studies in England got employment in the mine. It meant my mother Pamela Ineichen and I spent our first years in this northern village in the Viseu district. It was also during this time my brother Pedro came to us.

The pictures in my album from this period showed me playing around the house or out on outings and on the beach. I rode a tricycle, I recall the existence of small chicks and not an awful much more in those days when I was nothing else but Titi. The beach, I have now learnt, was Ericeira where the mothers and their children spent time on a rented apartment with their husbands coming down at weekends.

Responsible for this memory revival is film producer Ramsay Cameron. He has made a most interesting film about the history of the mine where the viewer discovers the economic and strategic importance of it. Many interesting aspects touching big world politics during and after the war, dictator Salazar’s involvement in this real “gold mine”. The Marie Curie, radium connection…The importance of the hotel Urgeiriça.

The mine’s large quantities of Uranium, needed for the nuclear weapon project, put a focus on this small and otherwise forgotten area. The film is available both in English as in Portuguese on https://vimeo.com/158161181. Watch it!

Ramsay’s father James Cameron was a chief engineer at the mines during the period that my family were there. I now know that it is Ramsay’s sister Cairine we can see on the photo shown above. I also learnt from Ramsay that the other girl is Dorothy Bennett. The Bennets were another family that my parents knew and spent time with.

The importance of writing a blog has been proven again.

O 24 de abril de 1974

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O que teria eu feito no dia 24 de abril? A primavera começava a ganhar terreno após um longo e rigoroso inverno. Teria começado os meus estudos na escola municipal para adultos com o intuito de seguir para alguma coisa. Como o meu sueco ainda era um tanto rudimentar, inscrevi-me nos cursos de linguas. Para ter nota em ingles penso que nem precisei de frequentar classes . Fiz logo o exame. Tambem não faltava mais nada… Tinha saudades de Portugal. Já só podia sonhar com o mar e a praia de Carcavelos e toda a nossa costa. A comidinha de que se está sempre a falar. As nossas imperiais. Tinha saudades…Mas ao mesmo tempo já  quase tinha deixado de sonhar.

Dava quase vergonha dizer às pessoas de onde vinha. Então há 48 anos debaixo da mais antiga ditadura da Europa e ninguem se mexe? Já com um filho e a tentar construir uma vida nova pela segunda vez. O meu foco não estava voltado para Portugal. O meu pai lá me enviava uns jornais da Bola para me ir inteirando de como ía o nosso Sporting.

As pessoas em Sundsvall mal sabiam o que era Portugal. Era mesmo quase só o futebol, os vinhos do Porto e as sardinhas em lata que eram a nossa referencia universal. O país estava mergulhado em silencio. O “orgulhosamente sós” de Salazar não nos dava nehum orgulho. Mas que estávamos sós ,estávamos…

O dia 24 de abril não me deixa memória nenhuma. Foi um dia como outro qualquer mas pode muito bem servir para sintetizar como um Estado pode abafar tanta creatividade,tanta força para trabalhar, tanto amor e tanta dedicação daqueles que estavam e dos que já não estavam.

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Marcello visita Londres

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O português ajusta-se bem ao mundo. É flexível e integra-se. Por isso temos portugueses espalhados pelos cantos do mundo. Além do mais gosta do seu país. Vibra com a sua seleção de futebol e com outros feitos desportivos. Orgulha-se da beleza do país e da sua cultura.

Na escola aprendi tudo sobre o heroísmo dos portugueses, país mais antigo da Europa, quase um mundo aparte. Heróis do mar, nobre Povo, aprendi a cantar ao lado do órgão do maestro Cruz no Colégio Valsassina.

Mas nem tudo estava bem. O meu contacto com a imigração dá-se em Londres quando durante alguns meses trabalho para o Banco Português do Atlântico, cujo escritório nas instalações do Banco do Brasil apenas tinha a função de encaminhar as poupanças dos imigrantes para as suas contas em Portugal para onde quase todos ansiavam retornar.

Em 1973, Portugal já levava um período de ditadura de 47 anos. Era o regime autoritário mais antigo da Europa. Era um país que já não nos podia orgulhar mas antes envergonhava. Com os índices de analfabetismo a rondar os 50%, uma pobreza gritante que obrigava centenas de milhares a procurar outros sítios para ganhar a vida, as prisões recheadas de presos políticos e uma guerra absurda para manter um Império Colonial. Éramos o país do pé descalço governado por sujeitos autocratas que queriam manter o país na ignorância e na pobreza porque um certo António Oliveira Salazar achava que a felicidade do povo era viver no campo e ir à missa. Ainda há pessoas que dizem que querem voltar a esses tempos. Não sei em que estarão a pensar…

É nesse ano em 15 de julho que Marcello Caetano faz uma visita oficial à Inglaterra com o intuito de celebrar os 600 anos de aliança Luso- Britânica. É uma visita acompanhada de manifestações e protestos. Não fui lá, nem sabia que tais manifestações se estavam a organizar, mas filmes dessa ocasião mostram Mário Soares entre os manifestantes.

É neste contexto nacional que volto a emigrar no ano de 1973 para a Suécia que tinha sido um país mais pobre que Portugal mas que tinha evoluído para uma das sociedades mais bem organizadas onde os seus cidadãos usufruíam de direitos sociais ímpares no mundo.

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O ditador visto do andar de cima

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Fiquei na criação de textos no meu blogue, até ao momento, estacionado nos primeiros 20 anos da minha vida ou seja entre os anos de 1952 e 1972. Tenho tentado captar e descrever memórias que tenham um interesse mais amplo e abrangente do que aquilo que tenha apenas que ver com as minhas mais íntimas e limitadas experiencias!

A internet permite entrar em contacto com muita gente e os média sociais são um importante complemento para intercambio de ideias e informação! No Facebook por exemplo coloco os meus textos em diferentes grupos se houver algo que possa interessar os participantes. Um desses grupos para nostálgicos como eu, é o “Recordar as décadas de 60 / 70”.

Foi aí que alguem colocou a foto que publico aqui que relembra os nossos autocarros da Carris de dois andares à londrina. Eram verdes e se bem que não fossem em grande quantidade faziam parte das características do transito da minha querida Lisboa dessa época!

Foi assim que me recordei de um episódio relacionado com um “Double decker”. Teria saído da Praceta de Carcavelos para apanhar o comboio da Sociedade do Estoril num domingo de 1967! A viagem era quase de certeza para a bola e para o Estádio de Alvalade!

Logo ali nos Restauradores e bem instalado no piso de cima vi aglomerado de gente e policia à saída do que era o SNI instalado no Palácio Foz. O SNI ou Secretariado Nacional de Informação  – era o organismo público responsável pela propaganda políticainformação pública,comunicação socialturismo e ação cultural, durante o regime do Estado Novo em Portugal.

Ora a alta personalidade não era outra senão o ditador de Portugal e chefe vitalicio do governo- O Salazar. Foi a única vez que lhe pus a vista em cima mas observei que não houve dentro do autocarro nenhuma manisfestação de alguma espécie.

Era naquele edificio que funcionava a censura que mantinha os portugueses condicionados e desconhecedores de tudo o que o Estado Novo queria omitir do conhecimento publico ou como o próprio Salazar na inauguração  expressou “Politicamente, só existe aquilo que o público sabe que existe.”

Em 1944 o organismo de censura passa a estar na dependência do Secretariado Nacional de Informação, que, por sua vez, estava sob a alçada do próprio Presidente do Conselho (Salazar).

Munidos com o célebre “lápis azul”, com que se cortava todo texto considerado impróprio, os censores de cada distrito ou cidade, apesar de receberem instruções genéricas quanto aos temas mais sensíveis a censurar, variavam muito no grau de severidade. De facto, verifica-se que houve regiões do país onde estes eram mais permissivos e outras onde eram exageradamente repressivos. Isto devia-se ao facto de constituírem um grupo muito heterogéneo a nível intelectual. Muitos reconheciam rapidamente qualquer texto mais ou menos “perigoso” ou revolucionário, enquanto que outros deixavam facilmente passar conteúdos abertamente subversivos.” Wikipédia