O Eusébio

Eusebio1

Quando estávamos a viver na Rua A às Amoreiras era aquilo um beco sem saída no fundo da Rua Aviador Plácido de Abreu. Ao lado havia apenas um campo abandonado nas traseiras do quartel da Artilharia 1. Este campo onde brincava era conhecido como Campo da Aliança. Tinha-se lá jogado à bola e ainda havia havia restos de uma bancada de cimento. Foi aí que se organizou durante um par de anos uma feira popular e foi tambem aí que uma noite correu a noticia que estariam lá uns jogadores do Benfica, entre eles o tal moço que tinha vindo de Lourenço Marques, o Eusébio. Claro que o queríamos ver. Ganharam uma coisas nas rifas ou na tombola. Penso que o que iam ganhando ofereceram aos miúdos. Foi o meu primeiro encontro com o Eusébio.

Tambem visitava o meu vizinho Vicente Lucas na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Vimo-nos várias vezes na década se sessenta e sempre mostrou humildade e bons modos. Cacei durante esse período o seu autógrafo que aqui fica!

Ele tinha dez anos mais que eu. Durante muito tempo era Eusébio o único portugues que se conhecia fora das fronteiras de Portugal. Embora não tenha jogado naquele jogo amigável com a Inglaterra em 69 estava lá, e encontrei-o por casualidade numa loja do centro de Londres. Quando se lhe dirigia a palavra falava como se fossemos conhecidos.

Uns anos depois, já não jogava, veio integrado na comitiva do Benfica que fez o seu estágio pré época na Suécia. O treinador era o sueco Sven- Göran Eriksson. Organizou-se um jogo treino com a equipa local do Alnö. Foi e continua a ser um dos eventos desportivos mais importantes aqui realizados. Foi um agora funcionário do municipio de Sundvall que se encarregou da organização do evento. Segundo ele deu lucro e foi de facto um feito trazer áquele campito o grande Benfica. Infelizmente não estava cá por ter sido no período de férias. Tive pena e tenha a certeza que se assim não fosse teria tido a oportunidade de falar mais com o Eusébio.

Descansa em paz Eusébio!

Terá sido o peru?

campolide

Dois acontecimentos involvendo derrame de sangue e drama  afectaram os meus primeiros anos! O primeiro acontecimento foi na casa da Rua de Campolide.   Aconteciam coisas de interesse na cozinha… Já não me recordo o que teria sido nesse dia mas não excluo que tenha sido matança de peru natalicio, que por mais estranho que pareça se fazia ainda nesses finns da década de cinquenta, principios da década de sessenta na própria casa. Penso que se dava um gole de aguardente à ave para ir desta para uma melhor de espirito mais leve!

Não era só “Quem quer figos quem quer almoçar?”, era tambem quem quer peru tem que o matar! A verdade é que me fecharam da cozinha e eu queria entrar. Bati fortemente e em fúria conta a porta envidraçada causando um dos vidros a partir-se e abrir uma profunda ferida no meu braço esquerdo. A cicatriz está lá como uma recordação para a vida!

Fui conduzido a um posto médico de urgencia ali atràs da Av. da Liberdade, a Cruz Verde! Puseram-me uns agravos para juntar a pele e fiquei recomposto!

A outra já aqui a contei. Foi quando me racharam a cabeça quando brincava na Rua A às Amoreiras. Dessa vez tive que ir para o Hospital de S. José onde a memória mais vincada acaba por ser a dos doentes que estariam nas urgencias e que me impressionaram bastante. Quanto ao tratamento dos pontos na cabeça não tenho memória alguma!

É esta básicamente a minha história relativamente aos acidentes violentos que me afectaram quando menino. Felizmente nunca parti nenhum osso!

O beco sem saída

calceteiro  imagesCAUY6KPB

Em Portugal sempre houve muita pobreza. Gente pobre, até paupérrima. Em todas as estatísticas podemos tristemente verificar que Portugal teve uma das sociedades mais desiguais da Europa. E continua a ter!

Quando nos mudámos para a Rua A às Amoreiras, fomos para um beco sem saída. Mas fomos para um prédio novo que ficaria e ficou mais tarde, no que hoje é a Avenida Conselheiro Fernando de Sousa. Uma boa parcela dos terrenos que ficavam entre a Rua A e o quartel de Infantaria 1 estavam divididos e separados por muros de pedra ou cercas de madeira. Um desses lotes seria utilizado pela Camara para  armazenar pedra para a construção de pavimentos. Eram pedras cúbicas de granito.  Era nesse espaço, onde ainda restava um muro de pedra, que uma familia numerosa se tinha instalado.

Era gente que teria vindo do Norte, provávelmente das Beiras. Os filhotes eram pequenos e os rapazes jogavam à bola na rua como nós, quase sempre descalços.A mãe era vendedora ambulante daquelas que ainda se ouviam apregoar, “Quem quer figos, quem quer almoçar?”. O pai era calceteiro e transportava um maço com que assentava as pedras de calcário com que se fazem os nossos passeios.Ouvi dizer que sofria de tuberculose. Um dia bateu na mulher, maltratou-a e teve que se chamar uma ambulancia. .

Uma das crianças teria uma pequena deficiencia mental e um dia pôs a barraca em que viviam a arder. Isto foi o que constatou…A barraca era montada com restos de materiais como tábuas e cartão e levava telhado de lata. O chão era a terra batida sobre a qual se erguia a frágil contrução, que fazia do muro de pedra, uma das paredes.

 Um dos miúdos foi para nossa casa. Deu-se-lhe banho e ficou a dormir lá. No dia seguinte saíu feliz para a rua, lavado e penteado com roupas novas e a tocar uma gaita de beiços que tinha sido minha. Encontrou o pai sentado sobre os escombros da casa destruída. Uns dias depois tinha já erguido nova barraca.

Fiquei muito orgulhoso do que os meus pais fizeram nessa noite dramática do beco sem saída!

Assim como do beco se fez uma avenida espero que os membros mais novos da familia tenham conseguido um futuro melhor.