O senhor da Praceta

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Fui percebendo aos poucos que o João Paulo Henriques era o senhor da Praceta. Nasceu lá, cresceu lá e lá morreu. Vamos ter saudades dele, já as temos…Os meus velhos amigos da Praceta sabem que os deixei muito cedo e só nos ultimos anos recuperei os cantactos e fiquei a saber que já tinhamos perdido alguns como o Luis Lacerda e o Mário Simões. Se alguma coisa aprendi foi que os nossos amigos de infancia não são iguais a nenhuns outros. Tratamo-nos por tu e não nos deixamos influenciar por politica ou religião. Quando nos encontramos agora é para sermos um pouco do que éramos. Irresponsáveis, brincalhões e principamente para nos recordarmos dos tempos da juventude quando tinhamos toda a nossa vida pela frente.

O João Paulo era companheiro do meu irmão Pedro. Andavam juntos na escola os dois mas não era para aí que estavam virados. Preocupávamos-nos certamente com eles lá em casa. Se andavam bem, se não faziam asneiras… Como irmão mais velho do Pedro devo ter tido as mesmas preocupações que a Paulucha tinha com o João Paulo. Quando eram mais pequenos jogavam muito ao berlinde mesmo em frente da nossa casa. Gostavam da praia, da pesca. Reencontrei o João Paulo a trabalhar num bar e penso que tambem trabalhava num banco. Nessa altura nem me apercebi que ainda vivia na Praceta.

Não sou a melhor pessoa para fazer um apanhado da vida do João Paulo. Alguns de voces leitores, poderão dar a vossa contribuição e ajudar-nos a recordar quem fez parte das vossas vidas. Afinal foram mais de 60 anos de convivencia. Aqui não há que sair longe da Praceta, de Carcavelos, da bela linha do Estoril. Foi aí que o João Paulo viveu e onde continuará a fazer parte da nossa memória.

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Era por esta porta

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Era por aqui que saía e entrava de minha casa na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Descendo as escadas do primeiro andar era muitas vezes com prazer que saía para as atividades que convidavam os meus vizinhos como o de jogar à bola, o que se fazia na clareira que deu lugar ao hotel e centro comercial que agora lá imperam. Também por esta porta saía nos dias de escola para o Liceu de Oeiras e para as responsabilidades que já iam despontando. Foi também por ali que no dia 11 de setembro de 1968 sai daquela que foi a minha última residência fixa em Portugal.
Por tudo isto foi um acontecimento especial a reunião de ontem à noite que juntou 14 pessoas com diversas afinidades com a Praceta. Ali no restaurante do Sr. Futuro com vista direta para a velha porta do prédio e aquela longa varanda onde uma vez dei conta que o meu “Rubber Soul” ,dos Beatles, tinha queimado ao sol.
Apareceram ao jantar várias gerações de Praceteiros, bem documentados em foto. Aqui fica para a posteridade. Digo diferentes gerações, não porque tivessem idades diferentes mas porque representaram épocas diferentes da adolescência por que todos passámos. Enquanto eu vivi na Praceta a tal idade da parvalheira e pouco mais, os outros presentes seguiram com novas e arrojadas aventuras no caminho para as vidas adultas em que se envolveram.
Como gostaria de explicar uma das maiores perdas para quem vai, muitas vezes ignoradas pelos que ficam , é mesmo perder de vista aqueles com quem brincámos e que por isso mesmo são os maiores e mais puros amigos que tivemos. Para ti um grande abraço que acaba por ser o abraço à juventude que já não somos.

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O Silvestre e a Maggie

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A gata que temos agora é a Maggie. É uma gata que sai à rua. Nasceu no campo e já se tinha habituado na ninhada a saír. O problema são as bulhas em que se envolve. Não sei bem quantas vezes já teve que visitar o veterinário por causa de feridas infetadas. Já anda com um funil enfiado na cabeça há duas semanas. Mas a ferida ainda não sarou. Coitada da Maggie fica desesperada pois não a deixamos sair à rua.

Pus-me a pensar no gato que nasceu comigo e me acompanhou durante os meus primeiros 16 anos. Nunca foi a um veterinário, que eu saiba. Só para ser capado. Era o Silvestre. Gato preto, elegante que se dizia era meio siames. Os meu pais trouxeram-no de Inglaterra. Não sei como fizeram a viagem. Quando fomos para a Urgeiriça ele foi tambem, evidentemente. Andaria lá fora à caça de ratos, lagartixas e passarinhos.

Quando fomos para Lisboa viver bem no centro de Lisboa o Silvestre fez-se gato de cidade. Tanto se dava em Campolide como nas Amoreiras. No velho campo da Aliança teria espaço para se movimentar. Às vezes ausentava-se por períodos e quando já o estávamos a dar por perdido lá aparecia ele.

Quando nos mudámos para Carcavelos e para a Praceta do Junqueiro penso que o Silvestre tinha uma vida feliz. Tinha pinhal bem próximo e muitos carros sob os quais se podia esconder. Trazia pulgas e mais os outros bichos de que já falámos mas nunca precisou de tratamentos médicos. Será que os gatos eram mais rijos ou mais pacificos que o são hoje? Na foto está a Maggie!

O Eusébio

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Quando estávamos a viver na Rua A às Amoreiras era aquilo um beco sem saída no fundo da Rua Aviador Plácido de Abreu. Ao lado havia apenas um campo abandonado nas traseiras do quartel da Artilharia 1. Este campo onde brincava era conhecido como Campo da Aliança. Tinha-se lá jogado à bola e ainda havia havia restos de uma bancada de cimento. Foi aí que se organizou durante um par de anos uma feira popular e foi tambem aí que uma noite correu a noticia que estariam lá uns jogadores do Benfica, entre eles o tal moço que tinha vindo de Lourenço Marques, o Eusébio. Claro que o queríamos ver. Ganharam uma coisas nas rifas ou na tombola. Penso que o que iam ganhando ofereceram aos miúdos. Foi o meu primeiro encontro com o Eusébio.

Tambem visitava o meu vizinho Vicente Lucas na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Vimo-nos várias vezes na década se sessenta e sempre mostrou humildade e bons modos. Cacei durante esse período o seu autógrafo que aqui fica!

Ele tinha dez anos mais que eu. Durante muito tempo era Eusébio o único portugues que se conhecia fora das fronteiras de Portugal. Embora não tenha jogado naquele jogo amigável com a Inglaterra em 69 estava lá, e encontrei-o por casualidade numa loja do centro de Londres. Quando se lhe dirigia a palavra falava como se fossemos conhecidos.

Uns anos depois, já não jogava, veio integrado na comitiva do Benfica que fez o seu estágio pré época na Suécia. O treinador era o sueco Sven- Göran Eriksson. Organizou-se um jogo treino com a equipa local do Alnö. Foi e continua a ser um dos eventos desportivos mais importantes aqui realizados. Foi um agora funcionário do municipio de Sundvall que se encarregou da organização do evento. Segundo ele deu lucro e foi de facto um feito trazer áquele campito o grande Benfica. Infelizmente não estava cá por ter sido no período de férias. Tive pena e tenha a certeza que se assim não fosse teria tido a oportunidade de falar mais com o Eusébio.

Descansa em paz Eusébio!

Praceta revisitada

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Foi concerteza em agosto de 1974 depois de quase 6 anos de saudade que voltei a Portugal. Já tinha um filho de 9 meses, o John, e como não podia deixar de ser queria que conhecessem a Praceta de Carcavelos. Tinha sido a partir de lá que tinha iniciado a minha vida de emigrante no dia 11 de setembro de 1968.

Chegámos de carro e dirigimo-nos ao Café Atlantico. Não foi nenhuma chegada apotetótica. Muito simplesmente começaram a juntar-se uma série de jovens que não eram da minha “geração. Puxámos da camera de super 8 e ficou para a posteridade esta curtissima metragem de 10 segundos. Reconhecem-se no grupo o João Paulo Henriques, ainda hoje residente na Praceta e o António Pedro Veloso cujo contacto reatei agora através do facebook. O que está ao meu lado… poderá ser o Zé Borsatti?

A vossa missão( se decidirem aceitar) é de nomearam o maior número de participantes dessa  tarde na Praceta há quase 40 anos! Quem ajuda? Será mesmo uma Missão Impossivel que era aquela série que passava na nossa televisão lá por 1967/68?

http://www.youtube.com/watch?v=yCmIrEGwYp4

Comunicação entre putos de 16 anos

Leslie  Godwin Esta foto não está relacionada com a carta e foi tirada um ano mais tarde

Londres 20/1/1969
Caro Amigo Johnny
Recebi a tua carta que me deliciou. Não recebi os cigarros mas não tem importancia, obrigado de qualquer modo. Não tenho escrito a vocês todos, não porque vos tenha esquecido mas por razões óbvias, falta de tempo, etc.
A minha vida agora está completamente mudada, estou a trabalhar numa das maiores corporações do mundo, cheia de snobs ingleses que passam a vida a chamar “sir” uns aos outros. Um dos meus directores só diz disparates como por exemplo- “And what other interests have you got on this fine bâteau, monsieur?- Good man. Good man”!
Os gajos aqui fartam-se de assinar seguros para os barcos portugueses. É vê-los a dizer os nomes todos em português, é de partir o coco. Todas as Marias e Manéis and all the bacaloeiros,etc.
O meu director no 1 deu-me já as datas para escolher para férias do verão que consistem em duas semanas sem contar com sábados nem domingos.
Espero que a malta da praceta que vem a Londres escreva e diga e principalmente o Zé e tu. Este ano não vos posso receber condignamente porque não tenho um andar nem nada mas para o próximo tude se há de arranjar. Se vocês trouxerem a tenda eu talvez possa ir com vocês até ao norte ou qualquer coisa do género.
Espero que o Zé tenha recebido o disco que lhe mandei pelo natal.E manda-me o dia dos anos dele para lhe fazer outra surpresa.

Escrever é uma merda ( bolas até que enfim que me lembrei duma palavra irregular) só queria que os meus pensamentos se propagassem até aí, pois eu penso muito em vocês. Os bifes são todos malucos. Parecem todos criminosos ou bêbados. O tipo com quem eu trabalho é um pachá, só fala do Concorde e do Queen Elizabeth II ( outro Johnny). Quando vocês vierem a Inglaterra vão me encontrar a falar português catedrático, pois estou-me a esquecer de todas as palavras que a malta costuma usar, pá.
Nunca mais joguei à bola e onde me entretenho agora é no rinque de patinagem no gelo que está cheio de miúdas taradinhas sexuais. Vêm contra mim, e começam a perguntar-me o nome, a morada,etc, etc. Desculpa estar –te a escrever tão mal mas estou muito cansado. Já escrevi duas cartas antes desta.
Espero que o Mário continue a ser “o melhor” e que o Lacerda continue com as suas filosofias, retóricas(gagusdasi*Incompreensivel) e excelente brilhantismo em Ciências Naturais e que todos tenham tido notas porreiras vocês e os putos da praceta, isto é todos os outros. O Sporting está uma merda. Escreve depressa e não te esqueças de dizer quando vens, se vens.
Saudades
Stafford

Jantar de Praceteiros

CIMG0120 (2)Teve lugar no passado dia três de agosto um jantar de confraternização com a presença de doze Praceteiros e afins, da década de sessenta!

A abrir o evento, surge a futura presidente da Junta de freguesia de S. Domingos de Rana, Sra. Maria Fernanda Gonçalves, em plena campanha para as autárquicas de Setembro. Aproveita para dar as boas vindas!

-Na Suécia onde resido desde 1973, costuma-se dizer, à laia de brincadeira que quando três suecos se juntam, escolhe-se logo um presidente, um secretário e um tesoureiro. Ficou por fazer! Declara João Pinheiro ( Staffordiano), iniciador deste evento.

O jantar efectuou-se no restaurante Melita em Rana e foi excelentemente organizado por Ana Barreto ( Pauluxa).

Os convivas trataram de diversas questöes,do foro das memórias do tempo de adolescencia, que passaram juntos na Praceta do Junqueiro, em Carcavelos. Além dos já referidos tomaram parte: José Manuel do Carmo e esposa Consuelo, que fizeram questão de vir expressamente do Algarve, Marina do Carmo, Pedro Lacerda e Cristina Santos, Betty Casqueiro, de Washington D.C., as irmãs Maria de Lourdes e Teresa Matos além de João Gouveia (Johhny) e do Pedro Pinheiro.

Segundo pudemos apurar, ficou decidido, que o próximo evento anual, será a 4 de agosto de 2014.

– A ideia até lá é fazermos outros eventos, para juntarmos mais pessoas, para o próximo ano- diz-nos João Gouveia!

O espirito da Praceta ficou bem demonstrado, neste evento, em que tambem sobresaíu a  boa comida e alguma sangria, que ajudaram à excelente boa disposição em que todos se encontravam, lá pela meia noite, quando os proprietários do restaurante simpáticamente convidaram os barulhentos Praceteiros a ir para casa!

O espirito da Praceta

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Deu para recordar e reviver, deu sim senhor! Juntaram-se algumas personalidades da história da Praceta num café logo ali ao lado do Hotel S. Julião! As maninhas Teresa e Maria de Lourdes Matos. A Paulucha que deveria ser eleita presidente ou se fosse caso de monarquia  imperatriz da Praceta de Carcavelos.

Apareceu o João Paulo que se lembrava que os americanos do prédio ao lado eram tão altos, que para não descer as escadas, desciam à rua pelas varandas! Foram momentos bem passados. De muito se falou mas faltou de muito ainda falar. A grande força dos memórias é que sendo individuais, não nos recordamos todos das mesmas coisas.Um pormenor de que certamente tanto eu como o João Paulo nos recordamos era a assobiadela que se utilizava para convidar a saír de casa e ir brincar, jogar á bola, ir prá praia, etc. Não se utilizavam as campaínhas, a não ser para chatear as pessoas! Fii,fii,fii…fii,fii,fuu!

Depois houve uma altura que está relacionada com a casa dos Henriques que tem que ver com o espiritismo. Acho que andávamos curiosos em experimentar. Era só preciso arranjar a tal mesa com pé de galo. Lembro-me de ver lá umas revistas com artigos impressionantes sobre o ectoplasma e a qualidade de algumas médiuns ativas no Brasil!

Fizemos o passeio para o nosso encontro, recordando o caminho que fazia todos os dias escolares de segunda a sábado para apanhar o comboio até à próxima paragem de Oeiras e das aulas no liceu que me esperavam! A viela que escolhia era invariávelmente a da foto pois ia diretamente da Praceta à longa avenida que dava para a estação. Viva a Praceta!

The bed in Madrid

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The return train trip towards northern Europe started in Mérida and headed towards Madrid.

The Interrail tickets that Mona had fixed, in that summer of 1972, were bought by someone she knew in Finland. In those days the route between Sundsvall and Waasa in Finland was quite busy. The ferry boat crossed the Bothnia Sea daily and many people just went across for the cheap booze.

As far as Interrail was concerned it worked this way… You could not use the low fees in the country of purchase. Buying the passes in Finland meant that we could travel in Sweden without any extra fees. After completion more precisely after 30 days, the tickets had to be left in in order to receive a refund.

Our goal on this leg was to hit Madrid and meet my father’s cousin Martinho. Martinho was my age had been to Portugal and stayed with us in the Praceta in Carcavelos, just a few years before. I do not recall where we met but he invited us to for dinner which was most appreciated.

We were invited to his flat which was his parent’s home in the heart of Madrid, more precisely at the Calle Velazquez. We stayed there and even though we did not see his mother I do recall sitting at table and being served by a maid at a most ceremonial manner.

Later some of his sisters did turn up but I cannot today recall which ones of the three sisters Fatima, Maria Amélia or Soledad that we met on this occasion. We were invited to stay and curiously Mona considered that the bed she slept on was the most comfortable she had ever experienced. This particular fact was many times mentioned by her and many years after it happened!

Mas a minha mãe foi a Évora!

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Muitas vezes ouvindo uma canção leva-me directamente para um sitio ou situação e lá fico a magicar com esse momento. Nao sei se acontece aos outros, mas a mim,sim!

É como aquelas associaçãoes Proustianas à vista, aos sons ou ao cheiro, descritas naquela sua obra prima “A la recherche du temps perdu”. Evidentemente que recuando 50 anos na vida essas memórias pertencem ao tempo perdido e que já não volta mais. Pretende-se então reviver ou ao menos recordar os sentimentos que então vivemos e que muitas vezes na carga nostálgica ficam mais importantes do que certamente o eram quando vividos! Como bradava o Toni de Matos “Ó tempo volta pra trás” ou mais recentemente o José Torres quando treinador da seleção nacional de futebol em 1986 no seu “deixem-me sonhar” só serve para dar enfâse ao espirito portugues da nostalgia, da saudade e muitas vezes do que não se pode obter!

Já aqui me referi ao “She Loves you”, dos Beatles, que associo à Praceta do Junqueiro em Carcavelos e à casa do americano Steve.tambêm à Praceta estão ligados os exitos de Roberto Carlos. “O calhambeque” e “ O leão está solto na rua”, para o qual se faziam textos alternativos.  Dois exemplos de muitos que poderia enumerar. Mas hoje estou-me a lembrar, não duma canção, mas sim de dois monólogos do nosso já desaparecido Raúl Solnado!

Quem pertence à minha geração não pode deixar de se recordar o grande sucesso que foi o disco do Solnado em que ele  fazia rir quem escutasse. Os monólogos que datam de 1962 caracterizam-se principalmente por “A guerra de 1908” e a “História da minha vida”. Mais tarde gravou  tambem os monólogos ao telefone que ficaram célebres!

O estilo era de de um humor absolutamente absurdo e pelos vistos não era só eu que achava piada, mas provávelmente só eu, associo esses monólogos, à piscina da Praia da maçãs! Além disso com apenas 10 anos deviam-me passar uma coisas ao lado. Dizia por  exemplo Solnado que quando ele nasceu o pai que trabalhava em Évora, já não vinha a casa há dois anos. Risadas prolongadas que acabaram com o remate que dá o o titulo a este texto.  Onde estavas quando ouviste o Solnado?