Retalhos da vida de um poeta

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A passagem de cada um de nós, aqui pela terra, é verdadeiramente curta. A tal imortalidade de que se fala só atinge uns poucos, quase sempre aqueles que deixaram algum testemunho de genialidade escrito, pintado ou esculpido. Outros andarão esquecidos para sempre. Ainda outros, “os coitados, imaginam-se poupados, pelo tempo e às escondidas partem pra novas surtidas”. Mas todos, mortais e não tem hoje com a técnica de informação, a oportunidade, de se encontrar referenciados. Através da internet e dos bilhões de referencias registradas. Aqui vão mais umas para darem com o Alexandre O’Neill.

A asma fazia dele um escravo da bombinha no entanto não dispensava do Portugues Suave, mas dos gatos mantinha distancia. Já dos cães era pavor. Adivinho que terá havido um trauma talvez de infancia, quem sabe senão lá para os lados de Amarante. “Cão maldito, sai depressa ó cão deste poema”.

À publicidade andava remetido. Na Telecine se faziam os filmes e volta e meia era para Cannes que se ía…saber se a algum prémio havia direito.“Quem anda aí. É BP gas, o gaz que está onde tu estás”.

Havia nomes que circulavam , pessoas que nunca conheci como Alain Oulman ou Cardoso Pires. Sttau Monteiro a excepcão. Outros como Amália eram sobejamente conhecidos. Da Amália se falava lá em casa, naquele período mais fecundo, que com a música de Oulman subiu uns patamares.” Que perfeito coracão no meu peito bateria”.

Nesse periodo em que viviamos na Calçada Eng. Miguel Pais 47- 4 era a música de Guershwin e dos franceses Bécaud e Montand, que saltava do gramofone. Este ultimo um favorito com o seu estilo poético e bem soletradas palavras  “Partir pour mourir un peu, a la guerre”.

Uma vez fomos ao futebol se não me engano era o Lusitano de Évora que visitava aquele majestoso Estádio da Luz. Impressionei-me de ver jogadas em que os jogadores do Benfica jogavam contra a própra baliza. Do futebol não penso que tenha deixado nem um verso.

Era de resto a Caparica que puxava,levavam cacilheiro e depois autocarro,  mas para viver não havia nada como a Politécnica e as íngremes subidas que tambem eram descidas e que às vezes levavam á tasca do Serafim mesmo á frente do Britanico.Era segundo percebi uma segunda casa e quem sabe se às vezes mesmo a primeira.

Pois é velho O’Neill, isto ainda dava muito pano pra mangas. Pena não poder voltar atrás no tempo para termos prolongado a nossa conversa naquela noite em que nos encontrámos ao balcão do Lira d’Ouro e onde vocemece muito provávelmente passava em revista tanta coisa que afinal o levou à imortalidade.

 

O atropelamento que não foi!

Rua A

Estaríamos no ano de 1961 ou 62. Vivia nessa altura na Rua A às Amoreiras num prédio que se  ainda não foi abatido está por dias. Ía ver a minha mãe e já era tardinha. Estava escuro. Teria que fazer um percurso bastante comprido pois a minha mãe estava na Calçada Eng. Miguel Pais. Para chegar lá tinha que atravessar a Duarte Pacheco, descer a Rua das Amoreiras até chegar ao Rato e subir a Escola Politécnica até à Miguel Pais.

Naquela altura andava-se muito a pé. A Engenheiro Duarte Pacheco já era uma grande via com muito transito. Havia lá geralmente um policia sinaleiro. Mas agora já não havia no sentido tradicional. Acabava de se extrear a sinalização de transito que era semi-automática, ou seja o policia ainda lá estava e era ele que carregava nos botões consoante a situação que estava.  A moda não pegou sabe-se lá porquê  e acabou tudo por ficar mesmo completamente automático.

Vi os carros pararem e comecei a atravessar a rua quando vejo um carro vir  contra mim do lado oposto. Ía a correr e com um golpe de rins saí ileso. Caíram-me em cima o sinaleiro e o condutor. Se eu era maluco, como me chamava, o que andava a fazer?? Juntaram-se logo mais uns populares curiosos por saber o que se tinha passado, se havia sangue, etc. Se me tinha assustado, mais assustado fiquei. Rápidamente passei de quase vitima para quase culpado. Era o infractor!

Senti as calças molhadas à medida que ía dando dados. Explicava que ía ver a minha mãe na morada que já referi e que se chamava Pamela. Aí o condutor perguntou se a minha mãe era professora de inglês no Instituto Britânico. Era sim senhor… Bom então podia seguir porque sendo ele mesmo seu aluno depois falava com ela.

Foi assim que me escapei por um triz para vos contar esta história!