Obrigado imigrante brasileiro

Comi umas coizinhas e tomei uma imperial ontem no Estádio Alvalade antes do jogo da seleção. Como quase invariávelmente acontece quem estava atrás do balcão era brasileiro.

Perguntei se alguma vez algum português lhes tinha agradecido por estarem cá em Portugal, estando como estão, a contribuir para o desenvolvimento económico do país. Riram-se e declararam que nunca tinha acontecido. Agradeci eu, como representante da sociedade envelhecida de Portugal, aquela que mais depende que hajam pessoas em idade ativa a trabalhar.

Na realidade penso que a imigração brasileira deve ser das mais bem sucedidas no mundo. Uma língua em comum e uma cultura muito próxima faz com que os brasileiros se integrem rápidamente e estejam aptos a trabalhar no próprio dia em que desembarcam em Portugal. Vou-me apercebendo que há brasileiros em quase todas as atividades realçando desde já as áreas da restauração e da saúde.

Qualquer país que não atraia imigracão é um país em desvantagem. Também um país que obriga os seus cidadãos a saír dos seus próprios países também está em desvantagem. Portugal tem os dois fenómenos paralelos, agravados com o brain drain a que estamos assistindo.

Ainda sou do tempo em que saíam de Portugal hordes de imigrantes os quais a sociedade portuguesa não tinha preparado nem estava interessada em investir neles. Quem não se recorda que durante muitos anos a maior fonte de riqueza do nosso paupérrimo país eram as receitas do imigrantes? Hoje já ninguem duvida que foram os imigrantes portugueses que contribuiram decidamente para o sucesso económico de muitos países europeus.

Estou-me a recordar conversas que tive com pessoas da classe média brasileira na Suécia na década de 1970.Eram refugiados à ditadura no Brasil. Diziam-me que a ideia que tinham dos portugueses era que vinham ao Brasil e abriam padarias. Na realidade esses portugueses no Brasil contribuiram e muito para o desenvolvimento desse país. Isto durante gerações. Mas os pratos da balança desequilibraram e agora já não são os portugueses a ir para o Brasil mas é o contrário que está a acontecer.

É Portugal um bom país para viver? Penso que o será se tiver uma ambição politica de diminuir os índices de pobreza aqui existentes. Segundo as estatísticas 17% da população de Portugal é considerada pobre. Tem que haver ambição para anualmente ir diminuindo os índices de pobreza. Só se conseguirá a médio ou longo prazo investindo nas áreas da nossa sociedade onde se faz a diferença, um sistema de educação e de educação vocacional, uma politica de apoio às famílias para que as crianças cresçam com esperança de uma vida melhor, uma politica de habitação que melhore as condições atuais. È possivel que Portugal continue a ser um país de eleição para o emigrante e para lá chegar temos que contar com os atuais imigrantes e tudo aquilo que nos prorcionam com o seu trabalho e presença. Bem hajam!

O beco sem saída

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Em Portugal sempre houve muita pobreza. Gente pobre, até paupérrima. Em todas as estatísticas podemos tristemente verificar que Portugal teve uma das sociedades mais desiguais da Europa. E continua a ter!

Quando nos mudámos para a Rua A às Amoreiras, fomos para um beco sem saída. Mas fomos para um prédio novo que ficaria e ficou mais tarde, no que hoje é a Avenida Conselheiro Fernando de Sousa. Uma boa parcela dos terrenos que ficavam entre a Rua A e o quartel de Infantaria 1 estavam divididos e separados por muros de pedra ou cercas de madeira. Um desses lotes seria utilizado pela Camara para  armazenar pedra para a construção de pavimentos. Eram pedras cúbicas de granito.  Era nesse espaço, onde ainda restava um muro de pedra, que uma familia numerosa se tinha instalado.

Era gente que teria vindo do Norte, provávelmente das Beiras. Os filhotes eram pequenos e os rapazes jogavam à bola na rua como nós, quase sempre descalços.A mãe era vendedora ambulante daquelas que ainda se ouviam apregoar, “Quem quer figos, quem quer almoçar?”. O pai era calceteiro e transportava um maço com que assentava as pedras de calcário com que se fazem os nossos passeios.Ouvi dizer que sofria de tuberculose. Um dia bateu na mulher, maltratou-a e teve que se chamar uma ambulancia. .

Uma das crianças teria uma pequena deficiencia mental e um dia pôs a barraca em que viviam a arder. Isto foi o que constatou…A barraca era montada com restos de materiais como tábuas e cartão e levava telhado de lata. O chão era a terra batida sobre a qual se erguia a frágil contrução, que fazia do muro de pedra, uma das paredes.

 Um dos miúdos foi para nossa casa. Deu-se-lhe banho e ficou a dormir lá. No dia seguinte saíu feliz para a rua, lavado e penteado com roupas novas e a tocar uma gaita de beiços que tinha sido minha. Encontrou o pai sentado sobre os escombros da casa destruída. Uns dias depois tinha já erguido nova barraca.

Fiquei muito orgulhoso do que os meus pais fizeram nessa noite dramática do beco sem saída!

Assim como do beco se fez uma avenida espero que os membros mais novos da familia tenham conseguido um futuro melhor.