O senhor da Praceta

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Fui percebendo aos poucos que o João Paulo Henriques era o senhor da Praceta. Nasceu lá, cresceu lá e lá morreu. Vamos ter saudades dele, já as temos…Os meus velhos amigos da Praceta sabem que os deixei muito cedo e só nos ultimos anos recuperei os cantactos e fiquei a saber que já tinhamos perdido alguns como o Luis Lacerda e o Mário Simões. Se alguma coisa aprendi foi que os nossos amigos de infancia não são iguais a nenhuns outros. Tratamo-nos por tu e não nos deixamos influenciar por politica ou religião. Quando nos encontramos agora é para sermos um pouco do que éramos. Irresponsáveis, brincalhões e principamente para nos recordarmos dos tempos da juventude quando tinhamos toda a nossa vida pela frente.

O João Paulo era companheiro do meu irmão Pedro. Andavam juntos na escola os dois mas não era para aí que estavam virados. Preocupávamos-nos certamente com eles lá em casa. Se andavam bem, se não faziam asneiras… Como irmão mais velho do Pedro devo ter tido as mesmas preocupações que a Paulucha tinha com o João Paulo. Quando eram mais pequenos jogavam muito ao berlinde mesmo em frente da nossa casa. Gostavam da praia, da pesca. Reencontrei o João Paulo a trabalhar num bar e penso que tambem trabalhava num banco. Nessa altura nem me apercebi que ainda vivia na Praceta.

Não sou a melhor pessoa para fazer um apanhado da vida do João Paulo. Alguns de voces leitores, poderão dar a vossa contribuição e ajudar-nos a recordar quem fez parte das vossas vidas. Afinal foram mais de 60 anos de convivencia. Aqui não há que sair longe da Praceta, de Carcavelos, da bela linha do Estoril. Foi aí que o João Paulo viveu e onde continuará a fazer parte da nossa memória.

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Comunicação entre putos de 16 anos

Leslie  Godwin Esta foto não está relacionada com a carta e foi tirada um ano mais tarde

Londres 20/1/1969
Caro Amigo Johnny
Recebi a tua carta que me deliciou. Não recebi os cigarros mas não tem importancia, obrigado de qualquer modo. Não tenho escrito a vocês todos, não porque vos tenha esquecido mas por razões óbvias, falta de tempo, etc.
A minha vida agora está completamente mudada, estou a trabalhar numa das maiores corporações do mundo, cheia de snobs ingleses que passam a vida a chamar “sir” uns aos outros. Um dos meus directores só diz disparates como por exemplo- “And what other interests have you got on this fine bâteau, monsieur?- Good man. Good man”!
Os gajos aqui fartam-se de assinar seguros para os barcos portugueses. É vê-los a dizer os nomes todos em português, é de partir o coco. Todas as Marias e Manéis and all the bacaloeiros,etc.
O meu director no 1 deu-me já as datas para escolher para férias do verão que consistem em duas semanas sem contar com sábados nem domingos.
Espero que a malta da praceta que vem a Londres escreva e diga e principalmente o Zé e tu. Este ano não vos posso receber condignamente porque não tenho um andar nem nada mas para o próximo tude se há de arranjar. Se vocês trouxerem a tenda eu talvez possa ir com vocês até ao norte ou qualquer coisa do género.
Espero que o Zé tenha recebido o disco que lhe mandei pelo natal.E manda-me o dia dos anos dele para lhe fazer outra surpresa.

Escrever é uma merda ( bolas até que enfim que me lembrei duma palavra irregular) só queria que os meus pensamentos se propagassem até aí, pois eu penso muito em vocês. Os bifes são todos malucos. Parecem todos criminosos ou bêbados. O tipo com quem eu trabalho é um pachá, só fala do Concorde e do Queen Elizabeth II ( outro Johnny). Quando vocês vierem a Inglaterra vão me encontrar a falar português catedrático, pois estou-me a esquecer de todas as palavras que a malta costuma usar, pá.
Nunca mais joguei à bola e onde me entretenho agora é no rinque de patinagem no gelo que está cheio de miúdas taradinhas sexuais. Vêm contra mim, e começam a perguntar-me o nome, a morada,etc, etc. Desculpa estar –te a escrever tão mal mas estou muito cansado. Já escrevi duas cartas antes desta.
Espero que o Mário continue a ser “o melhor” e que o Lacerda continue com as suas filosofias, retóricas(gagusdasi*Incompreensivel) e excelente brilhantismo em Ciências Naturais e que todos tenham tido notas porreiras vocês e os putos da praceta, isto é todos os outros. O Sporting está uma merda. Escreve depressa e não te esqueças de dizer quando vens, se vens.
Saudades
Stafford

O St. Julian’s

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Muitas pessoas associam Carcavelos com O colégio ingles St. Julians School. Andou lá, por exemplo, a minha irmã Joana. Lá andava com o seu uniforme e lá tinha as suas amigas das quais algumas viviam como nós, na Praceta do Junqueiro. Estou a lembrar-me das irmãs Mette e Anita Amundsen e da Ruth!  Como a Joana tem 5 anos e meio menos que eu, viviamos em mundos um tanto diferentes. Nunca entrei  no colégio  própriamente dito. Mas conhecia os campos adjacentes.

Paralelo com a avenida que dava para a estação corria um campo de golfe. Para lá andei algumas vezes à procura de bolas e cheguei a encontrar algumas. Era lá perto tambem o campo de futebol onde chegou a treinar o Benfica com Eusébio e tudo e onde vi jogar o Mário Simões numa equipa de juniores do Carcavelos que chegou ainda longe tendo defrontado o Sporting nalguma competição.

Quanto aos mundos separados da minha irmã e dos irmãos juntávamos-nos às refeições. Se há algo de que me arrependo dessa época era as vezes que provocávamos a minha irmã para que começasse a chorar. Era fácil pois tinha uns pontos fracos. Era cruel concerteza mas é o que fazem irmãos e especialmente na adolescencia. O meu arrependimento prende-se muito com o facto que era a minha avó Bua que a maior parte das vezes tinha que nos aturar e já tinha muita idade nessa altura.

Penso que alguns dos leitores destes textos andaram no St. Julian’s ou conhecem algo da escola que se gere pelo lema “Lux tua nos ducat” something like” Your light guides us”. Who has something to tell from that time?

 

As maratonas das arcadas.

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Na década de 60 podia-se circular por baixo de quase todas as arcadas da Praceta do Junqueiro. Exceptuava-se principalmente o hotel  S. Julião. Inspirados por algum evento desportivo voluntariaram-se vários jovens para competir a ver quem conseguia dar mais voltas à Praceta a correr. Já nessa altura não desistia e não gostava de perder. Tirem as conclusões…

Havia sim alguns desportistas na Praceta. Já anteriormente me referi ao Mário Simões que alem de ser um craque em natação e raguebi  tambem jogava à bola.

Um ano compôs-se uma equipa do Carcavelos em que entre outros figuravam o Mário e um tal Pavão que era quem marcava os golos. Foi uma boa equipa que chegou a despertar o interesse dos clubes grandes.

Outro atleta da nossa praça era o Zé Manel da Marina! Andava no atletismo e nas corridas de meio fundo ou fundo. Ele depois há-de esclarecer aqui as coisas e dar algumas explicações. É que uma vez fomos ao Estádio Nacional ver e apoiar o Zé em competição. As coisas até estavam a correr bem só que a uma certa altura começou a puxar pelos calções como que a queixar-se que lhe estavam a apertar ou a apertar qualquer coisa. Enfim foi uma carreira que não deu para chegar aos Olimpicos!

Amarcord amigo Mário!

 por do sol

É na juventude e adolescencia  quando ainda somos bastante novos que temos amigos e colegas que deixam marca e recordações únicas e genuinas. A amizade nesses tempos “despreocupados” é muitas vezes preponderante para esquecer os maus momentos porque todos passávamos.

Todos os que passaram pela adolescencia como voces queridos leitor ou leitora, saberão o que estou a dizer. Mais tarde lembramo-nos dos bons momentos como forma de manter são o espirito e sã a mente. E ainda bem!

Não invejo os adolescentes de hoje porque poucos viverão os momentos que passámos na Praceta do Junqueiro em Carcavelos na década de 60. A televisão era rudimentar, não havia computadores nem telemóveis  e assim passávamos tempo juntos a socializar,a jogar ás cartas, a disparatar, a desinformar-nos mutuamente o que tambem incluía a especulação  sobre o sexo oposto.

Hoje estou a recordar-me do Mário Simões. Teria um par de anos mais que eu. Mas era uma referencia… Nós eramos verdadeiramnte uns putosecos ao pé dele. O Mário era um grande desportista. Sempre bem treinado, tinha jeito para qualquer desporto mas evidenciou-se na natação e no raguebi. Muitas vezes o procurei quando ía a Portugal mas sem sucesso.

 Hoje se procurarmos o seu nome no Google não aparece nada. Bastante informação sim, sobre o seu pai o pianista Mário Simões, que além de ser conhecido por muitos exitos  da musica ligeira,nos deu algumas conhecidas marchas para a sofredora  familia Sportiguista.  A partir de hoje amigo Mário quem te procurar no Google e juntar Praceta e Carcavelos te encontrará assim como o meu testemunho de grande saudade por ti!