O senhor da Praceta

12003195_130431393973761_8647548440795597679_n

Fui percebendo aos poucos que o João Paulo Henriques era o senhor da Praceta. Nasceu lá, cresceu lá e lá morreu. Vamos ter saudades dele, já as temos…Os meus velhos amigos da Praceta sabem que os deixei muito cedo e só nos ultimos anos recuperei os cantactos e fiquei a saber que já tinhamos perdido alguns como o Luis Lacerda e o Mário Simões. Se alguma coisa aprendi foi que os nossos amigos de infancia não são iguais a nenhuns outros. Tratamo-nos por tu e não nos deixamos influenciar por politica ou religião. Quando nos encontramos agora é para sermos um pouco do que éramos. Irresponsáveis, brincalhões e principamente para nos recordarmos dos tempos da juventude quando tinhamos toda a nossa vida pela frente.

O João Paulo era companheiro do meu irmão Pedro. Andavam juntos na escola os dois mas não era para aí que estavam virados. Preocupávamos-nos certamente com eles lá em casa. Se andavam bem, se não faziam asneiras… Como irmão mais velho do Pedro devo ter tido as mesmas preocupações que a Paulucha tinha com o João Paulo. Quando eram mais pequenos jogavam muito ao berlinde mesmo em frente da nossa casa. Gostavam da praia, da pesca. Reencontrei o João Paulo a trabalhar num bar e penso que tambem trabalhava num banco. Nessa altura nem me apercebi que ainda vivia na Praceta.

Não sou a melhor pessoa para fazer um apanhado da vida do João Paulo. Alguns de voces leitores, poderão dar a vossa contribuição e ajudar-nos a recordar quem fez parte das vossas vidas. Afinal foram mais de 60 anos de convivencia. Aqui não há que sair longe da Praceta, de Carcavelos, da bela linha do Estoril. Foi aí que o João Paulo viveu e onde continuará a fazer parte da nossa memória.

419916_347111485333603_1359543480_n

Comunicação entre putos de 16 anos

Leslie  Godwin Esta foto não está relacionada com a carta e foi tirada um ano mais tarde

Londres 20/1/1969
Caro Amigo Johnny
Recebi a tua carta que me deliciou. Não recebi os cigarros mas não tem importancia, obrigado de qualquer modo. Não tenho escrito a vocês todos, não porque vos tenha esquecido mas por razões óbvias, falta de tempo, etc.
A minha vida agora está completamente mudada, estou a trabalhar numa das maiores corporações do mundo, cheia de snobs ingleses que passam a vida a chamar “sir” uns aos outros. Um dos meus directores só diz disparates como por exemplo- “And what other interests have you got on this fine bâteau, monsieur?- Good man. Good man”!
Os gajos aqui fartam-se de assinar seguros para os barcos portugueses. É vê-los a dizer os nomes todos em português, é de partir o coco. Todas as Marias e Manéis and all the bacaloeiros,etc.
O meu director no 1 deu-me já as datas para escolher para férias do verão que consistem em duas semanas sem contar com sábados nem domingos.
Espero que a malta da praceta que vem a Londres escreva e diga e principalmente o Zé e tu. Este ano não vos posso receber condignamente porque não tenho um andar nem nada mas para o próximo tude se há de arranjar. Se vocês trouxerem a tenda eu talvez possa ir com vocês até ao norte ou qualquer coisa do género.
Espero que o Zé tenha recebido o disco que lhe mandei pelo natal.E manda-me o dia dos anos dele para lhe fazer outra surpresa.

Escrever é uma merda ( bolas até que enfim que me lembrei duma palavra irregular) só queria que os meus pensamentos se propagassem até aí, pois eu penso muito em vocês. Os bifes são todos malucos. Parecem todos criminosos ou bêbados. O tipo com quem eu trabalho é um pachá, só fala do Concorde e do Queen Elizabeth II ( outro Johnny). Quando vocês vierem a Inglaterra vão me encontrar a falar português catedrático, pois estou-me a esquecer de todas as palavras que a malta costuma usar, pá.
Nunca mais joguei à bola e onde me entretenho agora é no rinque de patinagem no gelo que está cheio de miúdas taradinhas sexuais. Vêm contra mim, e começam a perguntar-me o nome, a morada,etc, etc. Desculpa estar –te a escrever tão mal mas estou muito cansado. Já escrevi duas cartas antes desta.
Espero que o Mário continue a ser “o melhor” e que o Lacerda continue com as suas filosofias, retóricas(gagusdasi*Incompreensivel) e excelente brilhantismo em Ciências Naturais e que todos tenham tido notas porreiras vocês e os putos da praceta, isto é todos os outros. O Sporting está uma merda. Escreve depressa e não te esqueças de dizer quando vens, se vens.
Saudades
Stafford

O Professor Ardisson Pereira

Mimeographed_tests

Frequentei o Liceu Nacional de Oeiras entre os anos de 1965 e 1968. Terá sido o meu período de escola mais feliz. Só tinha andado na Escola pública muito brevemente quando comecei o 1 ano do liceu. Tinha sido no Pedro Nunes, mais própriamente num anexo desse Liceu na turma H numero 20 do ano de 1962.

Nunca andei na mesma turma de nenhum dos amigos da Praceta de Carcavelos. Muito poucos andavam no Liceu de Oeiras e que me lembre era o João da mercearia, o Raminhos e o Lacerda. No liceu havia aquela malandragem do costume e uma convivencia unica que caracteriza os ambientes escolares. As escolas portuguesas nessa altura não eram própriamante universais. Só andava no liceu o estrato social  composto principalmente pela classe média baixa e para cima. A escola era exigente e as notas ditavam o futuro. As provas e chamadas escritas e orais tinham como função principal preparar para exames nacionais ou eliminar quem não estivesse disposto a trabalhar. Como meta estariam cursos superiores nas universidades.

Tinha excelentes professores em Oeiras. Hoje vou-me referir ao prof. Ardisson Pereira que ensinava História. As lições que dava eram para mim fascinantes. Usava-as para aprofundizar e desenvolver largos períodos da História com alguma incidencia na antiguidade de que seria especialista. Numa das provas escritas( vinham num papel a cheirar a um produto quimico em azul) colocou tres ou quatro questões na prova. Depois  debruçou-se sobre a secretária e não mais levantou o olhar até terminar a lição. Muitos alunos fizeram o que puderam para conferir e buscar respostas ou nos livros ou com os colegas. Mas foi uma autentica razia. Penso que ninguem teve nota positiva. Eram outros tempos e outras pedagogias. Eu para aquele tempo achava que o Ardisson Pereira era um grande professor mas muito mal compreendido por a grande parte dos adolescentes que tinha nas aulas.

Um deles já grande e com alguns anos chumbados era o Calado. E alguns professores não resistiam a clamar . Calado!….calado!

No Veleiro à espera da maré

veleiro

Tinha para com o Luis Lacerda uma afinidade muito especial. Nunca falávamos daquilo que nos ía na alma. Penso que ambos tínhamos uma série de feridas para sarar. Tinhamos nascido práticamente no mesmo dia. O que tinhamos passado estava cá metido dentro. Parece que não precisávamos de falar sobre isso. Mas levávamos connosco as feridas de relações mal tratadas e carencias psicológicas. Disso não tenho dúvidas.

Naquele ano de 1968 sem sabermos bem porquê, estávamos como que  a dizer adeus ao tempo de criança. Não sabiamos o que vinha mas penso que já havia uma nostalgia e uma tristeza que se apoderava de nós à medida que essa despedida se aproximava.

Fumávamos cigarros da marca Porto e bebiamos cafés, que o dinheiro não dava para muito mais. A mim nunca me caíram bem as cafeínas e quanto à nicotina tambem o meu corpo quis rechaçar. Senti-me mal uma vez e o Luis comecou a destruir os cigarros que levava. Era sensível…

Quando não procurávamos a Rota do Sol naquele inverno que abria 1968 íamos para a praia e sentávamo-nos no Veleiro.

Geralmente só lá estávamos nós . Púnhamos a Jukebox a funcionar. Invariávelmente era o “Dock of the bay” do Otis Redding que girava. Essa canção sintetizava sem o sabermos o que estávamos a passar.

Look like nothing’s gone change

Sitting here resting my bones/ And this loneliness won’t leave me alone/ It’s two thousand miles I roamed/ Just to make this dock my home.

Now I’m just gonna sit at the dock of the bay/ Watching the tide roll away/ Oooo-weee, sittin’ on the dock of the bay/ Wastin’ time…

Luis3 around 1968

Olhem através de qualquer janela

Look

 Se olharmos através de qualquer janela poderemos ver o nosso próprio reflexo ou o que se passa lá fora. Pelo menos aquilo que o nosso cérebro consegue interpretar. Tenho vindo a dedicar muitos textos do meu blog ao período especifico em que vivi na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Isso deve-se a dois factores: 1) São memórias importantes para mim e 2) Tem havido um interesse muito grande por parte do “Grupo da Praceta e do Bairro do Junqueiro” no Facebook.

 Embora muitos dos membros desse grupo sejam para mim desconhecidos alegra-me bastante que assim seja e que queiram participar. A Praceta tem a sua história e todos nós ajudámos a fazê-la. Desde que comecei o blog já consegui contato com alguns amigos da minha geração. Assim já incrementei e desenvolvi diálogo com a Paulucha, o João Raminhos, a Carla e o Zé Manel do Carmo. Espero que outros se seguirão. O blog já foi até à data visto1214 vezes!

 O tema desta intervenção tem que ver com um hit que ouvi em Londres quando lá estive nas férias. Foi num periodo fantástico  em que qualquer adolescente quereria participar. Nesse ano de 1965, tinha acabado de sair uma canção dos Hollies com o titulo “Look through any window”. Falei com o Luis e disse-lhe que era uma musica gira. Quando a mãe dele o levava a passear pela linha eu às vezes acompanhava-o. Dessa vez lá bem andámos nós às voltas pela poucas discotecas de Cascais e Estoril mas ninguem tinha esse disco. Hoje é fácil, basta ir ao Youtube para ver e ouvir. No nosso tempo andava-se à caça das novidades!

O Gatsby da Praceta

Luis

O meu melhor amigo na Praceta era o Luis Lacerda. Tinhamos a mesma idade, só um dia de diferença. O Luis era diferente dos outros rapazes da Praceta por muitos motivos mas na personalidade entendiamo-nos e gostávamos da companhia um do outro. Se quase todos viviamos na Praceta, o Luis não… Vivia numa moradia na Rua da Beira.

Em casa dele passávamos eternidades a jogar ao pingue pongue. No espaço de que dispunhamos e cabia a mesa do pingue-pongue,  pouco mais restava, mas era o suficiente para o gira discos. Estou-me a lembrar que quando gostávamos dum disco o ouviamos repetidamente.  Assim foi por exemplo com o Magical Mistery Tour, dos Beatles.

Luis around 1966

O Lacerda aparecia na Praceta muitas vezes. Quando vinha nós já o  ouviamos à distancia. Tinha uma Velo Solex e enquanto todos os outros andavam a pé ele tinha rodas. Mas era generoso e deixava outros andar.  Vinha a toda bisca com um daqueles casacos aos quadrados que gostava de usar. Jogava futebol connosco mas não tinha muito jeito. Riamo-nos muito e geralmente divertiamo-nos bastante.

Não sei se ele sempre me considerou o seu melhor amigo. Às vezes andavamos chateados um com o outro mas para mim o Lacerda e eu, éramos irmãos. Tenho tanta pena que ele já não esteja connosco. Que saudades e que brutalidade é a vida que nos separou tão cedo e que o levou tão cedo tambem. Se algum dia conseguirmos juntar as pessoas da Praceta vai ser ele quem  mais me faltará.

Deixo aqui a minha homenagem ao Luis Lacerda. Grande amigo, companheiro de infancia nunca te esquecerei!

velosolex