Legendas de João Manuel Pinheiro

1988

Era sem duvida um factor de grande orgulho ver o nome do meu pai nos ecrãs da RTP. Às vezes perguntavam-me se era o meu pai que fazia as legendas, enfim tinha uma celebridade na familia.Sentia-me alem disso participativo pois passava horas ao lado da moviola de trabalho num estúdio do Lumiar onde se fabricavam as legendas, em métodos, hoje considerados artesanais, mas naquelas épocas analógicas era mesmo high tech.

Mas havia mais, quando era miúdo participou na longa metragem “Canção da Terra”. Era pura e simplesmente o João Manuel. Ainda fomos ver o filme num salão qualquer dum bairro popular de Lisboa e guardo memórias do tal sentimento de orgulho e admiração que todos os filhos aspiram ter em relação aos pais.

Não recebi uma educação liberal, longe disso… Aquela geração dele tinha sida formada por ditaduras e intolerancias e consequentemente havia que tomar partido pois ou se estava com os bons ou com os maus, com os pobres ou com os ricos, com o PC ou com a União Nacional, com o Sporting ou com o Benfica. Foram tambem essas intransigencias que registraram as mais fortes memórias, positivas e negativas e que sem duvida contribuiram de forma inequivoca para a minha formação como homem adulto.

Foi sócio do Sporting mais de 50 anos e ía ver os jogos a Alvalade até poder. O marido duma tia levava-o em pequeno e ficou sportinguista.

A pequena classe média de Lisboa era principalmente intelectual. Frequentou o Colégio Valsassina onde conheceu outros rapazes do mesmo meio. O meu avo tinha sido advogado e politico, logo era homem de letras e humanista. Segundo o meu pai um pragmático como eu.

A irmã mais velha Maria Rogéria tinha emigrado e residia em Paris logo depois da guerra. O tempo que passou com ela lá, foi descrito como dos melhores da vida dele. Jantou com Jean Paul Sartre e conviveu com pessoas interessantes. A ida para Londrés, para tirar um curso de engenharia, foi-lhe imposto e não o entusiasmava. Foi aí no entanto que conheceu a Pam, minha mãe e casaram. Em 1952 nascia eu, o primeiro filho, em Stafford.

Na vida profissional passou por muitos sitios. Relembro minas da Urgeirica, C. Santos, Holliday on Ice, Ponte sobre o Tejo, Sheraton, Projecto Quinta do Lago, Intituto Portugues do Cinema. Deu aulas de ingles, estudou na faculdade como aluno mais velho.

Mas principalmente tinha sede de saber, de aprender.

Os filhos eram a sua paixão e preocupacão. Gostava da ideia de chefe de familia, sendo que não teve na realidade grande familia. Já em Portugal nasceram o Pedro e a Joana. Fez o que pode e o que soube fazer. As incompatibilidades com a minha mãe cedo se mostraram e as separações materializaram-se para desgosto e drama dos filhos e deles próprios.

Finalmente conheceu e casou-se pela segunda vez em 1988 . A Leonor foi a mulher que lhe trouxe felicidade e estabilidade emocional. Foi a companheira que procurou e encontrou. Interesses semelhantes e viagens conjuntas trouxeram imensa felicidade e recordo o reencontrar dos primos espanhóis e as férias em Fuengirola.

João Manuel Henriques Pinheiro faleceu no dia 16 de setembro 2016 com 91 anos.

Estão convidados a partilhar memórias e acrescentar dados aqui neste blogue.

joaomanuel

O João Manuel

235px-Porto-santo-1151

No dia 29 de março de 1938 tinha o João Manuel uns 12 anitos foi estreado o filme “ A Canção da Terra”. Tratava-se duma longa metragem com direção de Jorge Brum do Canto. Era a sua primeira longa metragem. Os  exteriores são filmados  na ilha de Porto Santo. Na ilha chovia pouco e a escassez da água fazia com que esta fosse motivo de conflito especialmente envolvendo o lavrador Gonçalves e sua namorada cujos amores eram cobiça de João Venâncio que por esse motivo não queria dividir a sua água com o antagonista!

O papel do João Manuel era divertido. O puto queria era andar a cantarolar e a pescar e sem se preocupar muito com as zaragatas da ilha! Era uma das personagens que se utilizavam com sucesso, para introduzir uma pouco de humor e boa disposicão no drama insular que se desenrolava.

Sendo o João Manuel meu pai fomos uma vez ver o filme a um qualquer cinema na área de Lisboa. Deveria ter menos de 12 anos pois recordo-me do meu pai falar lá com o porteiro a explicar porque deveria poder entrar para um filme que estava categorizado para maiores de 12 anos. Lá vimos o filme sem que alguem do cinema tivesse pedido a uma das estrelas presentes que se apresentasse ao público e recebesse uma salva de palmas. Enfim…

No fim do filme à saída ouviram-se uns comentários alegres das pessoas que achavam que o João Manuel tinha mesmo piada! Foi um motivo de muito orgulho ter como pai um ator mesmo infantil! Quem quiser poderá aqui ver um excerto de um dos filmes que ficou até hoje na memória cinematográfica de Portugal!

Ihttp://www.youtube.com/watch?v=Ii9a2U2yyYU