O 24 de abril de 1974

salazar

O que teria eu feito no dia 24 de abril? A primavera começava a ganhar terreno após um longo e rigoroso inverno. Teria começado os meus estudos na escola municipal para adultos com o intuito de seguir para alguma coisa. Como o meu sueco ainda era um tanto rudimentar, inscrevi-me nos cursos de linguas. Para ter nota em ingles penso que nem precisei de frequentar classes . Fiz logo o exame. Tambem não faltava mais nada… Tinha saudades de Portugal. Já só podia sonhar com o mar e a praia de Carcavelos e toda a nossa costa. A comidinha de que se está sempre a falar. As nossas imperiais. Tinha saudades…Mas ao mesmo tempo já  quase tinha deixado de sonhar.

Dava quase vergonha dizer às pessoas de onde vinha. Então há 48 anos debaixo da mais antiga ditadura da Europa e ninguem se mexe? Já com um filho e a tentar construir uma vida nova pela segunda vez. O meu foco não estava voltado para Portugal. O meu pai lá me enviava uns jornais da Bola para me ir inteirando de como ía o nosso Sporting.

As pessoas em Sundsvall mal sabiam o que era Portugal. Era mesmo quase só o futebol, os vinhos do Porto e as sardinhas em lata que eram a nossa referencia universal. O país estava mergulhado em silencio. O “orgulhosamente sós” de Salazar não nos dava nehum orgulho. Mas que estávamos sós ,estávamos…

O dia 24 de abril não me deixa memória nenhuma. Foi um dia como outro qualquer mas pode muito bem servir para sintetizar como um Estado pode abafar tanta creatividade,tanta força para trabalhar, tanto amor e tanta dedicação daqueles que estavam e dos que já não estavam.

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