O 25 de abril de1974

cravo

Todos guardamos memórias daquelas em que se pergunta: O que estavas a fazer quando aconteceu tal e tal?

Essas memórias costumam ser negativas, associadas a alguma calamidade ou a algum atentado que nos marcou por tambem nos afetar direta ou indiretamente. O primeiro evento de que me recordo foi no dia 22 de novembro de 1963. Tinha 11 anos e vivia na Politécnica em Lisboa. Recordo-me dessa noticia e exactamente onde estava, que era no apartamento na Eng. Miguel Pais. Senti a apreensão e preocupação dos adultos à minha volta.Havia uma insegurança em fazer grandes alaridos pois o assassinato do presidente Kennedy era do foro das politicas.

Do mesmo tipo foi o assassinato a Olof Palme, primeiro ministro em exercicio, no dia 28 de fevereiro de 1986. Vivia já na Suécia e foi um amigo chileno que me acordou ao telefone na manhã seguinte para informar do sucedido. Pensei que fosse uma brincadeira de mau gosto, mas nesse mesmo dia organizaram-se e participámos numa manifestação de solidariedade e pesar no centro de Sundsvall.

No dia 11 de setembro de 2003 estava com a Mona em Oslo para ver a seleção nacional de futebol jogar um amigável com a Noruega. Por telemóvel chegou-nos a noticia que a nossa ministra de Negócios Estrangeiros Anna Lindh havia sido vitimada em atentado com faca numa loja de Estocolmo. Ficámos apreensivos e só no dia seguinte depois de muitas notícias contraditórias ficámos a saber que Anna não tinha podido sobreviver aos ataques  do dia anterior.

A informação que recebi dos ataques ao World Trade Centre de Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001 foram dados numa reunião de pais duma nova classe na escola de Katrinelund onde trabalhava na altura. Recordo-me de ter comentado se não teria sido um filme ou piada de mau gosto o que me estavam a contar.

Estas noticias, todas de cariz negativo e calamitoso só podem ser acompanhadas de uma noticia positiva. Foi de manhã no dia 25 de abril de 1974 que a minha sogra informou que estavam a correr algumas noticias sobre acontecimentos em Lisboa. Terei encolhido os ombros e recordo-me ter pensado que não devia ter sido nada de mais. Mas foi ,e terei ocasião em futuros textos de repartir convosco como os eventos foram seguidos por uma pessoa, das muitas, que não estando lá, muito gostariam de ter estado. Nascia um novo Portugal!

Mas a minha mãe foi a Évora!

raul

Muitas vezes ouvindo uma canção leva-me directamente para um sitio ou situação e lá fico a magicar com esse momento. Nao sei se acontece aos outros, mas a mim,sim!

É como aquelas associaçãoes Proustianas à vista, aos sons ou ao cheiro, descritas naquela sua obra prima “A la recherche du temps perdu”. Evidentemente que recuando 50 anos na vida essas memórias pertencem ao tempo perdido e que já não volta mais. Pretende-se então reviver ou ao menos recordar os sentimentos que então vivemos e que muitas vezes na carga nostálgica ficam mais importantes do que certamente o eram quando vividos! Como bradava o Toni de Matos “Ó tempo volta pra trás” ou mais recentemente o José Torres quando treinador da seleção nacional de futebol em 1986 no seu “deixem-me sonhar” só serve para dar enfâse ao espirito portugues da nostalgia, da saudade e muitas vezes do que não se pode obter!

Já aqui me referi ao “She Loves you”, dos Beatles, que associo à Praceta do Junqueiro em Carcavelos e à casa do americano Steve.tambêm à Praceta estão ligados os exitos de Roberto Carlos. “O calhambeque” e “ O leão está solto na rua”, para o qual se faziam textos alternativos.  Dois exemplos de muitos que poderia enumerar. Mas hoje estou-me a lembrar, não duma canção, mas sim de dois monólogos do nosso já desaparecido Raúl Solnado!

Quem pertence à minha geração não pode deixar de se recordar o grande sucesso que foi o disco do Solnado em que ele  fazia rir quem escutasse. Os monólogos que datam de 1962 caracterizam-se principalmente por “A guerra de 1908” e a “História da minha vida”. Mais tarde gravou  tambem os monólogos ao telefone que ficaram célebres!

O estilo era de de um humor absolutamente absurdo e pelos vistos não era só eu que achava piada, mas provávelmente só eu, associo esses monólogos, à piscina da Praia da maçãs! Além disso com apenas 10 anos deviam-me passar uma coisas ao lado. Dizia por  exemplo Solnado que quando ele nasceu o pai que trabalhava em Évora, já não vinha a casa há dois anos. Risadas prolongadas que acabaram com o remate que dá o o titulo a este texto.  Onde estavas quando ouviste o Solnado?