O escritório de Salazar

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Corria o boato em 1968. A informação corria da clandestinidade. Salazar teria caído duma cadeira no seu escritório da casa de verão. Muito mais não se sabia. Era uma notícia que esperançava o fim da ditadura do Estado Novo. Salazar nacionalista tinha a ideologia que estava na moda. Os portugueses tinham interesses comuns e basta. Só que a ideologia acabou na segunda guerra mundial na Alemanha e na Itália com a derrota.

Continuou em Portugal. Com consequências nefastas para o desenvolvimento do país. Sem alternativas democráticas o país estagnou nas guerras coloniais, na emigração, na pobreza e ignorância dos portugueses. Salazar era homem de brandos costumes. Escolheu como casa de verão em 1950 o forte de Santo Antônio da Barra, forte mandado construir no reinado de Filipe I para essencialmente proteger a costa de Lisboa.

Salazar caiu mesmo da cadeira e o que eram os seus aposentos até 1968 estão agora abertos ao público. O mobiliário já lá não está mas uma fotografia mostra como era o seu escritório. A câmara de Cascais tratou por cedência do ministério da Defesa que se recuperasse o forte, e ainda bem. .. Espero que continue a ser possível aos cidadãos de hoje e do futuro o poderem visitar.

Foto de Salazar lendo um jornal que deveria saber estava debaixo das garras da censura.

Era por esta porta

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Era por aqui que saía e entrava de minha casa na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Descendo as escadas do primeiro andar era muitas vezes com prazer que saía para as atividades que convidavam os meus vizinhos como o de jogar à bola, o que se fazia na clareira que deu lugar ao hotel e centro comercial que agora lá imperam. Também por esta porta saía nos dias de escola para o Liceu de Oeiras e para as responsabilidades que já iam despontando. Foi também por ali que no dia 11 de setembro de 1968 sai daquela que foi a minha última residência fixa em Portugal.
Por tudo isto foi um acontecimento especial a reunião de ontem à noite que juntou 14 pessoas com diversas afinidades com a Praceta. Ali no restaurante do Sr. Futuro com vista direta para a velha porta do prédio e aquela longa varanda onde uma vez dei conta que o meu “Rubber Soul” ,dos Beatles, tinha queimado ao sol.
Apareceram ao jantar várias gerações de Praceteiros, bem documentados em foto. Aqui fica para a posteridade. Digo diferentes gerações, não porque tivessem idades diferentes mas porque representaram épocas diferentes da adolescência por que todos passámos. Enquanto eu vivi na Praceta a tal idade da parvalheira e pouco mais, os outros presentes seguiram com novas e arrojadas aventuras no caminho para as vidas adultas em que se envolveram.
Como gostaria de explicar uma das maiores perdas para quem vai, muitas vezes ignoradas pelos que ficam , é mesmo perder de vista aqueles com quem brincámos e que por isso mesmo são os maiores e mais puros amigos que tivemos. Para ti um grande abraço que acaba por ser o abraço à juventude que já não somos.

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According to Barata…

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João Barata is a student of photojournalism at Mid Sweden University in Sundsvall. He has as part of his work interviewed me in 2013. I have with his pernission decided to post his own version of myself here and share it with you.

“The Marginal road gave a good view of the Lisbon coast. When will I ever see it again, he thought while being driven by his dad to the airport. Joao Pinheiro decided to leave Portugal and move to the country where he was born, England. A war was going on between the Portuguese regime and the colonies. Angola, Guine-Bissau and Mozambique were the destination of several young men that had to fight for a regime that many, like Joao, did not support.

 

The arrival in the UK on the 11th of September 1968 was a turning point in his life. Many times the 16-year-old felt alone and displaced from a culture he had left behind at the age of three. To adapt and to integrate in the British society was extremely difficult during that first year. It would take time to make friends and to fully understand his new being. Fortunately he had the help from his uncle, who owned a chain of Patisseries spread all over south London. Joao was delighted that Uncle Dennis was prepared to give him employment and a living wage of 6 guineas a week. During those first months, his grandfather Joseph was also an extremely important person in the integration process. He helped him finding a job in the City (London’s’ financial district), and bought him his first tie. He even taught him to make a knot with it. In addition, he sent an envelope with a pound every Friday that many times kept Joao going.

 

On a cold, sunny autumn day I meet Joao for an interview. We gather outside the local library, near the Council offices where he works as a politician. We are not in Portugal or England but in Sundsvall, Sweden. It’s a small city halfway the coastline of the country. Joao’s job with the Department of Education is to improve learning standards in schools; “Education is my passion,” he points out. The politician seems to know almost everyone that passes by and even enquires the Polish workforce, restoring the pavement outside the main building, about their lives in Sweden. Before we go inside, Joao says to me, “Immigrants have value”.

We find some available seats in the library’s café and order coffee. Joao moved to Sweden in 1973 with is first wife Mona. Her parents were loyal to the workers and cooperative movement led by the Swedish Social Democratic Party. He tells me, “Mona’s father did volunteer work (…) we would not fill the car with petrol anywhere else but at the cooperative”. Everyone in the family was a member of the trade union. It was practice every day of the month, every month of the year. “It was a powerful religion”, Joao recalls. They had a great influence on him and within months of his arrival he went on to join the Party.

A few years later he volunteered to work with the GIF’s program, ‘Back to Basics’. Sundsvall’s biggest football club had the youth department underdeveloped and was missing the basic services that could help the local communities to enroll on sports activities. “I wanted to assist this communities in helping young people to feel integrated socially”, he says. “People that had money could do two or three sports but the immigrant communities were left out.” So, in 2001, he became President for the youth department of the club and by 2009 they had one of the best academies in the country.

Near the end of the interview, Joao opens up about the recent difficult times he’s been going through. In 2011 he lost two extremely important people during his existence, Mona and his mother. Their death made the 60-year-old look back at his life. It was difficult for him to cope with the loss, “it made me think about what and who I am”, he reveals. Shortly after, he started a blog on his earliest memories, “I write to publish some of the thoughts that passed through my mind in those days. Maybe I can make sense of it now”, he adds.

 

Some people that walk by our table recognize Joao and interrupt the interview. They talk in Swedish and I can’t understand what they are saying but these people are very willing to approach the Portuguese politician. He takes time to listen to what they have to say to him and is actually interested in knowing what is going on with them. There is honesty in Joao’s interaction with other people and they seem to appreciate that. Everyone is at ease.

While they speak, I think to myself that Joao’s life has been shaped by sturdy decisions that caused him to have a great sense of reverence for others. He’s a man that both respects and is respected. He’s a good man.”

Praceta revisitada

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Foi concerteza em agosto de 1974 depois de quase 6 anos de saudade que voltei a Portugal. Já tinha um filho de 9 meses, o John, e como não podia deixar de ser queria que conhecessem a Praceta de Carcavelos. Tinha sido a partir de lá que tinha iniciado a minha vida de emigrante no dia 11 de setembro de 1968.

Chegámos de carro e dirigimo-nos ao Café Atlantico. Não foi nenhuma chegada apotetótica. Muito simplesmente começaram a juntar-se uma série de jovens que não eram da minha “geração. Puxámos da camera de super 8 e ficou para a posteridade esta curtissima metragem de 10 segundos. Reconhecem-se no grupo o João Paulo Henriques, ainda hoje residente na Praceta e o António Pedro Veloso cujo contacto reatei agora através do facebook. O que está ao meu lado… poderá ser o Zé Borsatti?

A vossa missão( se decidirem aceitar) é de nomearam o maior número de participantes dessa  tarde na Praceta há quase 40 anos! Quem ajuda? Será mesmo uma Missão Impossivel que era aquela série que passava na nossa televisão lá por 1967/68?

http://www.youtube.com/watch?v=yCmIrEGwYp4

The Umeå years (2)

 

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Umeå was not an inviting town in 1976. I felt lonely… My son has later described my homecomings at weekends as those of a stranger. I spent most of my time sitting in the library studying in order to get my teacher’s degree as fast as possible. It was a time for sacrifice. We did not have much money. The Swedish system with a study grant was important to our economy. In the summer I earned some money on summer jobs in Sundsvall.

There were some positive highlights that I will mention in coming texts concerning my years in Umeå. The first one I would mention was enrolling in the Social-Democratic Student Association. I learned on arrival that every student had to belong to the Student Union (kår). I also learned that students could elect their representatives to the student Parliament.

Umeå was still living the spirit of 1968. They were many discussions and debates concerning most things big and small. The SD students were radical and much on the left of the main party. The British “Militant” section of the Labour party was the inspiration. The ideas for the newspaper” Offensiv”, were based on Trotskij’s socialist defiance of Stalin Communism. When I enrolled I got involved in the matter at hand that had to do on whether or not a number of members of the club should be excluded. A decision was eventually taken and some of the “Offensiv” members were excluded and accused of infiltration. When I arrived most of these exclusions had already been carried through.

Maybe one should remember in what world we were living then with violent Vietnam war just ended after 20 years and quiet cold war dividing people and ideas.

The student club was a place to be welcomed in. The interest for international questions and politics engaged and excited me. I recall many of these colleagues and many interesting meetings we had. I was invited to travel to different towns in the north and Olle Westerlund’s old Volvo took us to places like Storuman in the Lapland interior. We travelled there through snowstorms and reindeer herds.

Here with Christer Holmgren and Christer Söderman in 1977

Usf

 

Farewell Dennis

Pollards hill

Most of us learn in time to understand that we all are different. Uncle Dennis and I did not always hit it well, but whether it was for conflicting personalities or the flow of circumstances is not important any longer. I choose today to remember you, Dennis Frith, for the man you were, and my memories attached to you.

My first encounter, that I remember, was visiting the family in the late fifties at your house in Thornton Heath. I remember that from the back window I could see a large cemetery. But most of all you made cakes at home. I believe somehow that you were beginning your successful career in the business of pastry. The smell and looks of sugar icing and whipped cream is something that no child can ignore. You were never one for hanging around chatting as I recall!

I did however get a better picture of you, when I took my big step, of starting a new life in 1968. Then, you and auntie Dot played a main role. By this time you had built up a considerable activity with several shops in the south of London and own production in what was called Frtith’s Patisserie. Your home and kitchens were in Barnes, so that’s where I came. You fixed me up with a room at Mrs Meltzer’s and gave me my first employment working at your office in Richmond. No one would ever ignore how important this was for me to start off my life as an adult.

Your favourite song was, for along time, Cliff Richard’s “Living Doll” and you did never miss an episode of the Forsythe Saga on television.

By this time you played tennis and had a passion for antiques. You were always in the look for a rare old painting and meticulously learned more. Whatever you did had a purpose and was well in line with the self made man you were. Rest in peace and thank you.

Foot note- In this picture from left to right- My grandmother Bua, auntie Dot, uncle Bernard, uncle Dennis, and my grandmother Dorothy Begernie Ineichen. Standing behind- my father João and my grandfather Joseph Ineichen. The picture was probably taken in 1951 in connection with my parents marriage on the 14 July.

http://www.youtube.com/watch?v=gTN9NuSj43s

 

 

Caprichos da moda

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Quem tivesse, como eu, crescido na década de sessenta em Portugal, teria que fazer um grande esforço para acompanhar a revolução da moda desses anos. É que com os Beatles houve grandes convulsões que tinham como objectivo mostrar a irreverencia de quem era jovem. Esta revolta juvenil, viria a culminar nos acontecimentos de Paris em maio de 1968.

Eu, por exemplo, passava horas a tentar seguir o que faziam os meus ídolos, de Liverpool. Não sei até que ponto é que os quatro guedelhudos eram vistos com bons olhos pela ”situação”. De qualquer forma muitos rapazes passaram por maus bocados por deixarem crescer o cabelo. Quem quisesse seguir a moda teria que depender de contrabando ou da única boutique em existência em Lisboa “ Os Por-fi-ri-os”.

Quando fui a Londres consegui o meu designio de adquirir os tais sapatos bicudos com elástico lateral. Muitos amigos de Carcavelos falavam dum sitio (Quinta dos Lombos?) onde se podiam adquirir jeans da marca Levi’s mas eu nunca lá cheguei a ir pois não teria dinheiro que chegasse para tais compras.

Uma imagem bastante marcante na Praceta foi o aparecimento casual de uns alemães com calças boca de sino. Aquilo sim, era elegancia! Até parecia que os rapazes vinham doutro planeta. E tinham perna comprida! Eu pelo menos andava desejoso de poder imitá-los!

Mas a minha grande vitória, recuando um pouco no tempo,  foi quando depois de meses de persuação consegui que a minha mãe cedesse a deixar-me andar de calças compridas em vez dos calções curtos! O resultado foi uma lágrimazinha de tristeza no olho da minha mãe e uma de alegria no meu!

 

O meu querido Sporting

sócio sportingComecei muito cedo a ir ao Estádio Alvalade. Talvez lá para 1960. Ía com o meu pai que era sócio e ficávamos quase sempre num lugar cativo que ele tinha na bancada central. Do lado oposto era o peão. Gradulamente fui passando a minha atenção de andar a apanhar caricas, para ver o que se passava dentro do campo! Às vezes ao intervalo mudávamos de lugar para acompanhar melhor o ataque do Sporting.

O momento alto dos jogos era a entrada dos jogadores em campo. Naquela altura os jogadores não faziam aquecimento dentro do campo. Primeiro entrava a equipa visitante, quase sempre acompanhada duma série de assobios. E ficava-se à espera do nosso querido Sporting. Levantava-se um burburinho quando se topavam as cabeças dos jogadores à entrada do túnel que tinha umas escadas que conduziam ao campo e que os jogadores tinham que subir.

De repente entravam, sempre a correr e em fila indiana. Era uma emoção fora do vulgar que se apoderava do publico. Se estava cheio o campo ( se a casa estava boa) era um barulho infernal!

Via quase todos os jogos em casa e algumas vezes, Restelo, Atlético ou Setúbal, íamos fora.

Adoro o meu clube mas não menosprezo os outros. O clubismo em Portugal desviava e desvia ainda a atenção às questões politicas e sociais. Prefiro recordar-me com nostalgia a Maria José Valério a inspirar-nos com a sua “Rapaziada ouçam bem o que lhes digo e gritem todos comigo- Viva o Sporting!”

No Veleiro à espera da maré

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Tinha para com o Luis Lacerda uma afinidade muito especial. Nunca falávamos daquilo que nos ía na alma. Penso que ambos tínhamos uma série de feridas para sarar. Tinhamos nascido práticamente no mesmo dia. O que tinhamos passado estava cá metido dentro. Parece que não precisávamos de falar sobre isso. Mas levávamos connosco as feridas de relações mal tratadas e carencias psicológicas. Disso não tenho dúvidas.

Naquele ano de 1968 sem sabermos bem porquê, estávamos como que  a dizer adeus ao tempo de criança. Não sabiamos o que vinha mas penso que já havia uma nostalgia e uma tristeza que se apoderava de nós à medida que essa despedida se aproximava.

Fumávamos cigarros da marca Porto e bebiamos cafés, que o dinheiro não dava para muito mais. A mim nunca me caíram bem as cafeínas e quanto à nicotina tambem o meu corpo quis rechaçar. Senti-me mal uma vez e o Luis comecou a destruir os cigarros que levava. Era sensível…

Quando não procurávamos a Rota do Sol naquele inverno que abria 1968 íamos para a praia e sentávamo-nos no Veleiro.

Geralmente só lá estávamos nós . Púnhamos a Jukebox a funcionar. Invariávelmente era o “Dock of the bay” do Otis Redding que girava. Essa canção sintetizava sem o sabermos o que estávamos a passar.

Look like nothing’s gone change

Sitting here resting my bones/ And this loneliness won’t leave me alone/ It’s two thousand miles I roamed/ Just to make this dock my home.

Now I’m just gonna sit at the dock of the bay/ Watching the tide roll away/ Oooo-weee, sittin’ on the dock of the bay/ Wastin’ time…

Luis3 around 1968