Os bravos da Monarquia

A Républica implantou-se em Portugal a 5 de outubro de 1910. Facto práticamente inevitável devido ao descontentamento com a situação social e económica com que se debatiam imensas familias portuguesas. O novo regime trouxe algum entusiasmo mas teve que enfrentar bastantes crises politicas com sucessivas mudanças de governo e de politicas. Alguns aspiravam como solução o regresso da monarquia. Penso que os monárquicos confiavam que Sidónio Pais militar com tendencias ditatoriais e forte popularidade entre os católicos pudesse abrir o caminho para o regresso de D. Manuel exilado em Londres. Com o assassinato de Sidónio Pais em dezembro de 1918 mergulha o país numa situação de ainda maior instabilidade e à beira da guerra civil.

É neste cenário que se dá a tentativa de golpe para repor a monarquia em Portugal. Esta ¨Monarquia do Norte¨ com sede na cidade do Porto apenas durou 25 dias a partir do dia 19 de janeiro de 1919. Os monárquicos com o apoio militar de Henrique Paiva Couceiro não conseguiram vingar nas sua tentativa de mudar i sistema e tambem não receberam apoio do rei exilado que não acreditou no sucesso e estratégia desta acção.

Um dos participantes neste golpe foi o meu tio avô Martinho Caldeira Ribeiro. Com 21 anos, na altura, deveria concerteza ter abraçado a causa com paixão mas não sendo certamente figura de relevo em tão tenra idade. Quem no entanto teve um papel mais preponderante foi José Maria Baldaque Guimarães nascido em Cedofeita em 1880 e filho dos padrinhos da minha avó Rogeria Caldeira Ribeiro. Durante a Monarquia do Norte José Maria foi nomeado inspetor. Com o risco de ser condenado a prisão fugiu para o Brasil em 1920.

O jovem Martinho tambem estava em risco de ser preso e tratou de tentar atravessar a fronteira para Espanha. Terá sido o seu cunhado e meu avô republicano, João Henriques Pinheiro, quem terá facilitado a travessia do rio Erges ali em Salvaterra do Extremo para o reino da Espanha onde formou familia e por lá ficou. Assim se conta e explica a existencia dos primos espanhóis de Madrid.

José Maria Baldaque Guimarães

A companhia do Niassa

Pemba

Nos finais do século XIX havia uma grande pressão sobre Portugal para bem administrar os seus territórios do ultramar, as colónias. Tanto ingleses como alemães viam com interesse a exploração agricola de vastos territórios em África e planeavam dividi-las entre si como era o caso no norte de Moçambique. Entrou então na moda criarem-se “Companhias”. Uma delas foi a Companhia do Niassa ! A companhia a partir de 1893 era administrada por Portugal cujo papel era estabelecer o desenvovimento económico e manter o controle sobre as provincias de Niassa e Cabo Delgado.

Em 1904 a cidade de Porto Amélia (hoje Pemba) foi fundada e passou a ser o quartel-geral da companhia.

Foi para aí que foi indigitado o meu avô, João Henriques Pinheiro em 1920 como governador do território após 4 meses como seu secretário geral. A 1 de agosto de 1923 a seu pedido deixou frustrado e triste por falta de condições para bem governar com um minimo de justiça social para os empregados da Companhia assim como para as populações indigenas. No seu relatório ao conselho de administração compreende-se bem quem era o homem e da sua honradez e honestidade. Disso me orgulho.

As colónias portuguesas eram péssimamente mal geridas. Não havia dinheiro para as desenvolver. Muitas vezes tambem incompetencia. O orçamento de que dispunha não dava nem para pagar aos funcionários “que morriam de fome”. Aos agricultores e aos comerciantes não se lhes podia impor que pagassem mais impostos já que, “  a companhia nunca tinha oferecido os suficientes meios de proteção e as necessárias garantias para o desenvolvimento do seu trabalho”. Os indigenas que eram das raças Makua, Ajaua e Makonde e tinham sido subjugados militarmente “não estavam disciplinados para o trabalho… e a companhia ainda não se tinha preocupado com a assistencia que lhes devia”.

Tudo isto e um ciclone que no dia a seguir à sua posse no cargo, no dia 1 de dezembro de 1920 “ assaltou e destruiu Porto Amélia, arrazando os seus edificios” só podia significar uma missão impossivel.

Assim escreveu o meu avô na introdução ao seu relatório final “ Sem dinheiro e com a desgraçada situação a pesar, como um remorso, sobre os meus ombros. E de Lisboa apoquentavam-me, continuamente, com pedidos de dinheiro, como se eu tivesse à minha disposição a máquina de impressão do Banco de Portugal.

São frequentes os ciclones em Porto Amélia. O ciclone anterior datava de 1914. Deveria fazer-se, então, o que eu fiz depois, para evitar os enormes prejuizos do ciclone de 1920. E assim começou o meu governo.”