Bernard’s Travels (2)

In November 2018 I was at Bellapais Abbey, near Kyrenia, Northern Cyprus. It was my third visit. My first had been 61 years ago. My year in Cyprus (1957-8) in the British Army had been unlike any other of my life. I kept a diary and filled a photographic album. I was tanned and had learned to swim. I overheard more obscenities in that one year than in all the others of my life. I had my own Sten-gun and was licensed to use it to kill people in certain circumstances. All the time I was myself in danger of being killed.
Cyprus at the time was a dangerous place for everyone. EOKA, a terrorist organisation dedicated to union with Greece, had started killing, and the army had retaliated. The Turks, who made up 20 percent of the population, were understandably not impressed. The two populations had never mingled on any scale. Very few Cypriots spoke both Greek and Turkish. Opinions and actions quickly polarised. 
Like most Mediterranean islands, Cyprus had a history of occupation by outside forces: Romans, Byzantines, Venetians, everyone had come and conquered. The British were the latest, given Cyprus as part of a deal at the Congress of Berlin in 1878. So my role was in the army of occupation, at a time when the British Empire was well into its dissolution. At the other end of the Med, the French were hanging on (at an even greater cost) to Algeria. In Cyprus 492 Cypriots and 142 British people were murdered between 1954 and 1958. These deaths in Cyprus raised its profile from a sleepy backwater to world news.
At this time the British Army was incredibly naive in its standing on the global stage. It had yet to learn the lessons of the 30-year-long “struggle” in Northern Ireland. It not only failed to understand what was going on, but had no appropriate language to describe the events. Its response was a largely brutal one of facing violence with violence, with a far greater force of men, but out of its depth facing guerrilla operations. Back in the UK, politicians had to deal with a largely unsophisticated and uninformed electorate which resented the loss of colony after colony. In the words of US Secretary of State Foster Dulles, Britain had “lost an empire and failed to find a role”.
My tiny role in these events was largely as a helpless, ignorant spectator. When I was sent to Cyprus, I received no political briefing on the reason for my presence there. Those in charge of us knew little better. In the words of the officer commanding a road block I manned “Use your common sense”.
Let me return now to Kyrenia and introduce Lawrence Durrell. His brilliant book, _Bitter Lemons_ for the first time revealed to the English-speaking world the subtlety of the emotions behind the conflict, as well as the political pressures that had brought it about. He was recruited in a master stroke by the British government as their Information Officer; effectively head of their PR. _Bitter Lemons_ is his account of how he set about this job. Durrell was Irish and didn’t like the Brits very much. He did like the Greeks and one of a handful of Greek speakers in the service of the British government during its 80-year occupation of the island.
He bought a house in Kyrenia and made local friends in including Kollis, the Custodian of Bellapais Abbey, whose photo is included in the early editions of the book. I met Kollis and the man who took over Durrell’s job, whose marvellous conversation I have sadly forgotten – but it was a wonderful contrast to the unremitting coarseness and obscenities of everyday army language.
Bellapais Abbey is enjoying good times. The main room has been restored and at the time of my last visit was hosting a month-long music festival. Heaven only knows how they cope with the parking!
Bellapais’ happiness and prosperity is reflected across Cyprus as a whole, both in my last visit, taking in Larnaca and Paphos, and in the previous one to the north. One new dimension is the development alongside tourism of archaeology, which has expanded rapidly in recent decades. The Cyprus Museum in Nicosia is clearly worth a visit.
A more recent development still is the growing influence of Russia: one of the newest hotels is named ‘Odessa’, presumably as it is marketed largely in Russia. Russians and the Russian language pop up everywhere. How many poorly paid Cypriot employees are there working in the British bases? The security issues must be a nightmare.
The division of the island following the Turkish invasion in 1974 is held on all sides to be a disaster, and many personal accounts concern genuine loss of homes and property. But the two groups of Greeks and Turks have never enjoyed much real integration, and now both appear at peace within their borders. A further happy dimension is the apparent peaceful relations they enjoy in Britain.

O escritório de Salazar

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Corria o boato em 1968. A informação corria da clandestinidade. Salazar teria caído duma cadeira no seu escritório da casa de verão. Muito mais não se sabia. Era uma notícia que esperançava o fim da ditadura do Estado Novo. Salazar nacionalista tinha a ideologia que estava na moda. Os portugueses tinham interesses comuns e basta. Só que a ideologia acabou na segunda guerra mundial na Alemanha e na Itália com a derrota.

Continuou em Portugal. Com consequências nefastas para o desenvolvimento do país. Sem alternativas democráticas o país estagnou nas guerras coloniais, na emigração, na pobreza e ignorância dos portugueses. Salazar era homem de brandos costumes. Escolheu como casa de verão em 1950 o forte de Santo Antônio da Barra, forte mandado construir no reinado de Filipe I para essencialmente proteger a costa de Lisboa.

Salazar caiu mesmo da cadeira e o que eram os seus aposentos até 1968 estão agora abertos ao público. O mobiliário já lá não está mas uma fotografia mostra como era o seu escritório. A câmara de Cascais tratou por cedência do ministério da Defesa que se recuperasse o forte, e ainda bem. .. Espero que continue a ser possível aos cidadãos de hoje e do futuro o poderem visitar.

Foto de Salazar lendo um jornal que deveria saber estava debaixo das garras da censura.

Memorias do Portugal-Uruguai

Foi a 26 de junho de 1966. A seleção nacional fazia o jogo de despedida antes de viajar para Inglaterra para participar no nosso primeiro mundial. O meu pai arranjou bilhetes e o Estádio Nacional estava cheio. Seria a primeira vez que ao vivo veria a seleção. Tinha 14 anos. Também pela primeira e única vez estava a minha avó Rogéria. Tinha 80 anos. A minha avó lia muito e seguia com interesse o fenómeno Eusébio.

O adversário para este encontro era uma seleção com pergaminhos mas que Portugal nunca tinha defrontado, o Uruguai.

O Torres marcou três golos e o resultado final foi mesmo 3-0. A minha avó achou mal que tivessem convidado cá os Uruguaios para sofrer derrota tão pesada e se não seria simpático deixá-los marcar um golo.

Mais logo é mesmo a sério. Cristiano Ronaldo e equipa terão que encontrar maneira de desfeitear o Uruguai 52 anos depois. Não vai ser fácil.

Falta-me o Pedro

É a segunda vez na minha vida que vou para Portugal sem lá estar o Pedro. A primeira foi quando me embarcaram no “Alcantara” no dia 11 de outubro de 1952 com destino a Lisboa. A 23 de fevereiro de 1954 nascia o Pedro. Desde então fomos irmãos. Passámos 14 anos como irmãos primeiro crianças e depois adolescentes. Passam- me muitas imagens desses tempos pela cabeça. Tivemos como todos momentos bons e maus. Coisas que me marcaram talvez não o tenham marcado tanto. Nunca o saberemos. O Pedro não se abria muito. Quando os nossos pais se separaram foi um rude golpe. Estávamos em idade difícil. Não entendíamos muito bem o que se passava, mas as brigas dos nossos pais eram difícil de lidar.
Fomos parar ao colégio Valsassina como alunos internos e no verão fomos para a colônia de férias na Praia das Maçãs. Para mim esse tempo foi dramático. Como irmão mais velho sentia que tinha que proteger o Pedro.
As coisas acalmaram quando fomos para Carcavelos viver com a nossa mãe, irmã Joana e avó Bua. O Pedro era muito generoso. Sempre nos lembrávamos quando íamos à Feira Popular e ele sempre tinha uns tostões para fazermos qualquer coisa extra. Na Praceta de Carcavelos o Pedro adoptou cães abandonados e fez comércio com bichos da seda.
A qualquer jogo de mesa que participasse tacitamente e irremediavelmente ganhava. Não havia hipótese. A escola no entanto não era para ele e nunca percebeu muito bem o que lá andava a fazer. Preocupava todos quando desaparecia para pescar ou fazer campismo. Nunca deu nenhuma importância aos confortos caseiros. Preferia mesmo era uma vida simples e sem complicações. Mais tarde aderiu à vida de praia e gostava de dar mergulhos no nosso mar Atlântico.
Quando era pequeno lembro-me de o ver jogar ao berlinde com grande entusiasmo e de cócoras. Da varanda a minha avó preocupava-se com o Pedro e seu futuro. Talvez pudesse ser relojoeiro?
Não foi para muito longe. Foi para a montagem de filmes. Gostava daquele ambiente que requeria paciência e ambientes fechados . Foi nos filmes que conheceu a Maria João e com ela teve as duas maravilhosas filhas Marta e Catarina.
 O Pedro integrou-se na nova família. Cumpriu o seu papel de pai acompanhando as filhas quando cresciam. Penso que foi um bom pai para as meninas e que se esforçou por fazer o melhor. Sempre mostrou orgulho por elas sem precisar de o dizer diretamente.
A vida do trabalhador da área do cinema não é fácil. É um ramo para entusiastas sempre com pouco dinheiro. O Pedro nunca ganhou grande coisa no cinema e quando as montagens passaram para a digitalização não sei se acompanhou as mudanças. Para dizer a verdade nunca percebia grande coisa quando falava da sua vida profissional. Sei que tinha alguns amigos nos filmes. Estava sempre disposto a ir com eles por esse Portugal fora fazendo diversos trabalhos ligados às produções cinematográficas.
Mais tarde na vida quando se separou da Maria João conheceu a Sara e com ela teve o Miguel. Este filho passou a ser o motivo principal da sua vida. Andava sempre com o Miguel e ajudava a Sara. Teve um amigo no Andy que apoiou a família nos momentos difíceis. Faleceu no passado dia 12 de maio após prolongada e dolorosa doença que enfrentou à maneira da sua personalidade tentando envolver outros o mínimo possível. Era o meu irmão e sinto a sua falta.

Manuel Toscano foi para o Brasil

Penso que estou a ficar especialista nas freguesias do concelho de Idanha-a- Nova, distrito de Castelo Branco. Mais concretamente Monsanto, Rosmaninhal e Salvaterra do Extremo onde vou colecionando um verdadeiro banco genealógico.

A possibildade de a partir de casa de fazer pesquisa através do tombo.pt é o dado mais importante que permite este trabalho. À medida que mais individuos aparecem nas bases de dados tambem novas informações e interesses vão aparecendo. Li recentemente que o interesse por exemplo da medicina, da policia, etc, aumenta para a utilização de bases de dados dos programas de genealogia com por exemplo o Ancestry.

Foi exatamente nesse site do Ancestry que me apareceu esta ficha consular do Brasil autorizando que Manuel de Mendonça Toscano emigrasse para o Brasil em 1952 com trinta anos de idade. Como ele era de Monsanto e com aqueles apelidos que aparecem também nos meus antepassados é lógico perceber que teremos ascendentes comuns. Não sei nada sobre ele. Se ficou no Brasil, o que lá fez, se formou familia?

Penso que alguem dará com este texto do meu blogue brevemente e reconhecerá este familiar. Se assim for pode comunicar por este meio e terei todo gosto em passar as informações de que disponho.

Legendas de João Manuel Pinheiro

1988

Era sem duvida um factor de grande orgulho ver o nome do meu pai nos ecrãs da RTP. Às vezes perguntavam-me se era o meu pai que fazia as legendas, enfim tinha uma celebridade na familia.Sentia-me alem disso participativo pois passava horas ao lado da moviola de trabalho num estúdio do Lumiar onde se fabricavam as legendas, em métodos, hoje considerados artesanais, mas naquelas épocas analógicas era mesmo high tech.

Mas havia mais, quando era miúdo participou na longa metragem “Canção da Terra”. Era pura e simplesmente o João Manuel. Ainda fomos ver o filme num salão qualquer dum bairro popular de Lisboa e guardo memórias do tal sentimento de orgulho e admiração que todos os filhos aspiram ter em relação aos pais.

Não recebi uma educação liberal, longe disso… Aquela geração dele tinha sida formada por ditaduras e intolerancias e consequentemente havia que tomar partido pois ou se estava com os bons ou com os maus, com os pobres ou com os ricos, com o PC ou com a União Nacional, com o Sporting ou com o Benfica. Foram tambem essas intransigencias que registraram as mais fortes memórias, positivas e negativas e que sem duvida contribuiram de forma inequivoca para a minha formação como homem adulto.

Foi sócio do Sporting mais de 50 anos e ía ver os jogos a Alvalade até poder. O marido duma tia levava-o em pequeno e ficou sportinguista.

A pequena classe média de Lisboa era principalmente intelectual. Frequentou o Colégio Valsassina onde conheceu outros rapazes do mesmo meio. O meu avo tinha sido advogado e politico, logo era homem de letras e humanista. Segundo o meu pai um pragmático como eu.

A irmã mais velha Maria Rogéria tinha emigrado e residia em Paris logo depois da guerra. O tempo que passou com ela lá, foi descrito como dos melhores da vida dele. Jantou com Jean Paul Sartre e conviveu com pessoas interessantes. A ida para Londrés, para tirar um curso de engenharia, foi-lhe imposto e não o entusiasmava. Foi aí no entanto que conheceu a Pam, minha mãe e casaram. Em 1952 nascia eu, o primeiro filho, em Stafford.

Na vida profissional passou por muitos sitios. Relembro minas da Urgeirica, C. Santos, Holliday on Ice, Ponte sobre o Tejo, Sheraton, Projecto Quinta do Lago, Intituto Portugues do Cinema. Deu aulas de ingles, estudou na faculdade como aluno mais velho.

Mas principalmente tinha sede de saber, de aprender.

Os filhos eram a sua paixão e preocupacão. Gostava da ideia de chefe de familia, sendo que não teve na realidade grande familia. Já em Portugal nasceram o Pedro e a Joana. Fez o que pode e o que soube fazer. As incompatibilidades com a minha mãe cedo se mostraram e as separações materializaram-se para desgosto e drama dos filhos e deles próprios.

Finalmente conheceu e casou-se pela segunda vez em 1988 . A Leonor foi a mulher que lhe trouxe felicidade e estabilidade emocional. Foi a companheira que procurou e encontrou. Interesses semelhantes e viagens conjuntas trouxeram imensa felicidade e recordo o reencontrar dos primos espanhóis e as férias em Fuengirola.

João Manuel Henriques Pinheiro faleceu no dia 16 de setembro 2016 com 91 anos.

Estão convidados a partilhar memórias e acrescentar dados aqui neste blogue.

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A Urgeiriça revivida

Urgeirica

A pequena localidade mineira da Urgeiriça e os meus primeiros anos de vida aí passados foram revividos a semana passada. A mina está encerrada desde 1992 mas tem um historial de 80 anos durante os quais milhares de trabalhadores extraíram 1,6 milhões de toneladas de mineral utilizável ( especialmente Uranio) e deixaram ainda mais 2,5 milhões de toneladas de resíduos radioactivos.

Os meus poucos anos na Urgeiriça datam da década de cinquenta quando o meu pai João Manuel Pinheiro depois de completar estudos de engenharia em Inglaterra obteve trabalho na empresa que explorava a mina. Isto significou que a minha mãe Pamela Ineichen e eu passamos ps primeiros tempos de vida em Portugal nesta pequena aldeia do norte no distrito de Viseu. Tambem foi nesta altura que nasceu o meu irmão Pedro (1954).

As fotos deste periodo que tenho no meu album apresentavam-me a brincar à volta da casa ou fazendo piqueniques ou mesmo em periodos na praia. Tinha um triciclo, lembro-me da existencia de pintos de algum galinheiro e não muito mais de memórias me posso gabar desses dias em que dava pelo nome de Titi. A praia, vim a saber, por meu pai era a Ericeira para onde algumas mães íam com os filhos num apartamento alugado com os maridos a juntarem-se aos fins de semana.

A responsabilidade deste memorial todo foi o filme produzido por Ramsay Cameron (Urgeiriça cem anos) relatando a história da mina. Filme este que demontra ao espectador a importancia estratégica e económica da mesma. Muitos aspetos interessantes estão relacionados com a politica a nível mundial durante e depois da segunda guerra mundial, o envolvimento do ditador Salazar nesta verdadeira “ mina de ouro”. Tambem a primeira coneção entre a descoberta do mineral Rádio e de Marie Curie. Tambem a importancia do conhecido hotel Urgeiriça.

As enormes quantidades de Uranio encontradas e necessárias para os programas de armas nucleares pôs um foco único nesta pequena localidade que talvez ficasse de outra forma mais esquecida. O filme tem versões em portugues e ingles e encontra-se com facilidade na internet em https://vimeo.com/158161181. Vejam-no!

O pai de Ramsay Cameron , James, era engenheiro chefe nas minas quando lá viviamos. Fiquei a saber que é a irmã dele Cairine quem aparece na foto que aqui publico. Tambem fiquei a saber que a outra menina é a Dorothy Bennett com quem apareço noutras fotos. Os Bennetts eram outra familia que os meus pais conheciam e com quem se davam.

A importancia de escrever um blogue ficou mais uma vez provada.

Urgeiriça coming to life

Urgeirica

The small mining village of Urgeiriça, and my first years spent there all came to life a couple of weeks ago. The mine has been closed since 1992 but has a history of 80 years during which thousands of workers got out some 1.6 million tons of usable mineral (mainly Uranium) and left behind another 2.5 million tons radioactive residuals.

My few years in Urgeiriça go back to the early fifties when my father João Manuel Pinheiro after completing his engineering studies in England got employment in the mine. It meant my mother Pamela Ineichen and I spent our first years in this northern village in the Viseu district. It was also during this time my brother Pedro came to us.

The pictures in my album from this period showed me playing around the house or out on outings and on the beach. I rode a tricycle, I recall the existence of small chicks and not an awful much more in those days when I was nothing else but Titi. The beach, I have now learnt, was Ericeira where the mothers and their children spent time on a rented apartment with their husbands coming down at weekends.

Responsible for this memory revival is film producer Ramsay Cameron. He has made a most interesting film about the history of the mine where the viewer discovers the economic and strategic importance of it. Many interesting aspects touching big world politics during and after the war, dictator Salazar’s involvement in this real “gold mine”. The Marie Curie, radium connection…The importance of the hotel Urgeiriça.

The mine’s large quantities of Uranium, needed for the nuclear weapon project, put a focus on this small and otherwise forgotten area. The film is available both in English as in Portuguese on https://vimeo.com/158161181. Watch it!

Ramsay’s father James Cameron was a chief engineer at the mines during the period that my family were there. I now know that it is Ramsay’s sister Cairine we can see on the photo shown above. I also learnt from Ramsay that the other girl is Dorothy Bennett. The Bennets were another family that my parents knew and spent time with.

The importance of writing a blog has been proven again.

Retalhos da vida de um poeta

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A passagem de cada um de nós, aqui pela terra, é verdadeiramente curta. A tal imortalidade de que se fala só atinge uns poucos, quase sempre aqueles que deixaram algum testemunho de genialidade escrito, pintado ou esculpido. Outros andarão esquecidos para sempre. Ainda outros, “os coitados, imaginam-se poupados, pelo tempo e às escondidas partem pra novas surtidas”. Mas todos, mortais e não tem hoje com a técnica de informação, a oportunidade, de se encontrar referenciados. Através da internet e dos bilhões de referencias registradas. Aqui vão mais umas para darem com o Alexandre O’Neill.

A asma fazia dele um escravo da bombinha no entanto não dispensava do Portugues Suave, mas dos gatos mantinha distancia. Já dos cães era pavor. Adivinho que terá havido um trauma talvez de infancia, quem sabe senão lá para os lados de Amarante. “Cão maldito, sai depressa ó cão deste poema”.

À publicidade andava remetido. Na Telecine se faziam os filmes e volta e meia era para Cannes que se ía…saber se a algum prémio havia direito.“Quem anda aí. É BP gas, o gaz que está onde tu estás”.

Havia nomes que circulavam , pessoas que nunca conheci como Alain Oulman ou Cardoso Pires. Sttau Monteiro a excepcão. Outros como Amália eram sobejamente conhecidos. Da Amália se falava lá em casa, naquele período mais fecundo, que com a música de Oulman subiu uns patamares.” Que perfeito coracão no meu peito bateria”.

Nesse periodo em que viviamos na Calçada Eng. Miguel Pais 47- 4 era a música de Guershwin e dos franceses Bécaud e Montand, que saltava do gramofone. Este ultimo um favorito com o seu estilo poético e bem soletradas palavras  “Partir pour mourir un peu, a la guerre”.

Uma vez fomos ao futebol se não me engano era o Lusitano de Évora que visitava aquele majestoso Estádio da Luz. Impressionei-me de ver jogadas em que os jogadores do Benfica jogavam contra a própra baliza. Do futebol não penso que tenha deixado nem um verso.

Era de resto a Caparica que puxava,levavam cacilheiro e depois autocarro,  mas para viver não havia nada como a Politécnica e as íngremes subidas que tambem eram descidas e que às vezes levavam á tasca do Serafim mesmo á frente do Britanico.Era segundo percebi uma segunda casa e quem sabe se às vezes mesmo a primeira.

Pois é velho O’Neill, isto ainda dava muito pano pra mangas. Pena não poder voltar atrás no tempo para termos prolongado a nossa conversa naquela noite em que nos encontrámos ao balcão do Lira d’Ouro e onde vocemece muito provávelmente passava em revista tanta coisa que afinal o levou à imortalidade.

 

Era por esta porta

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Era por aqui que saía e entrava de minha casa na Praceta do Junqueiro em Carcavelos. Descendo as escadas do primeiro andar era muitas vezes com prazer que saía para as atividades que convidavam os meus vizinhos como o de jogar à bola, o que se fazia na clareira que deu lugar ao hotel e centro comercial que agora lá imperam. Também por esta porta saía nos dias de escola para o Liceu de Oeiras e para as responsabilidades que já iam despontando. Foi também por ali que no dia 11 de setembro de 1968 sai daquela que foi a minha última residência fixa em Portugal.
Por tudo isto foi um acontecimento especial a reunião de ontem à noite que juntou 14 pessoas com diversas afinidades com a Praceta. Ali no restaurante do Sr. Futuro com vista direta para a velha porta do prédio e aquela longa varanda onde uma vez dei conta que o meu “Rubber Soul” ,dos Beatles, tinha queimado ao sol.
Apareceram ao jantar várias gerações de Praceteiros, bem documentados em foto. Aqui fica para a posteridade. Digo diferentes gerações, não porque tivessem idades diferentes mas porque representaram épocas diferentes da adolescência por que todos passámos. Enquanto eu vivi na Praceta a tal idade da parvalheira e pouco mais, os outros presentes seguiram com novas e arrojadas aventuras no caminho para as vidas adultas em que se envolveram.
Como gostaria de explicar uma das maiores perdas para quem vai, muitas vezes ignoradas pelos que ficam , é mesmo perder de vista aqueles com quem brincámos e que por isso mesmo são os maiores e mais puros amigos que tivemos. Para ti um grande abraço que acaba por ser o abraço à juventude que já não somos.

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