Falta-me o Pedro

É a segunda vez na minha vida que vou para Portugal sem lá estar o Pedro. A primeira foi quando me embarcaram no “Alcantara” no dia 11 de outubro de 1952 com destino a Lisboa. A 23 de fevereiro de 1954 nascia o Pedro. Desde então fomos irmãos. Passámos 14 anos como irmãos primeiro crianças e depois adolescentes. Passam- me muitas imagens desses tempos pela cabeça. Tivemos como todos momentos bons e maus. Coisas que me marcaram talvez não o tenham marcado tanto. Nunca o saberemos. O Pedro não se abria muito. Quando os nossos pais se separaram foi um rude golpe. Estávamos em idade difícil. Não entendíamos muito bem o que se passava, mas as brigas dos nossos pais eram difícil de lidar.
Fomos parar ao colégio Valsassina como alunos internos e no verão fomos para a colônia de férias na Praia das Maçãs. Para mim esse tempo foi dramático. Como irmão mais velho sentia que tinha que proteger o Pedro.
As coisas acalmaram quando fomos para Carcavelos viver com a nossa mãe, irmã Joana e avó Bua. O Pedro era muito generoso. Sempre nos lembrávamos quando íamos à Feira Popular e ele sempre tinha uns tostões para fazermos qualquer coisa extra. Na Praceta de Carcavelos o Pedro adoptou cães abandonados e fez comércio com bichos da seda.
A qualquer jogo de mesa que participasse tacitamente e irremediavelmente ganhava. Não havia hipótese. A escola no entanto não era para ele e nunca percebeu muito bem o que lá andava a fazer. Preocupava todos quando desaparecia para pescar ou fazer campismo. Nunca deu nenhuma importância aos confortos caseiros. Preferia mesmo era uma vida simples e sem complicações. Mais tarde aderiu à vida de praia e gostava de dar mergulhos no nosso mar Atlântico.
Quando era pequeno lembro-me de o ver jogar ao berlinde com grande entusiasmo e de cócoras. Da varanda a minha avó preocupava-se com o Pedro e seu futuro. Talvez pudesse ser relojoeiro?
Não foi para muito longe. Foi para a montagem de filmes. Gostava daquele ambiente que requeria paciência e ambientes fechados . Foi nos filmes que conheceu a Maria João e com ela teve as duas maravilhosas filhas Marta e Catarina.
 O Pedro integrou-se na nova família. Cumpriu o seu papel de pai acompanhando as filhas quando cresciam. Penso que foi um bom pai para as meninas e que se esforçou por fazer o melhor. Sempre mostrou orgulho por elas sem precisar de o dizer diretamente.
A vida do trabalhador da área do cinema não é fácil. É um ramo para entusiastas sempre com pouco dinheiro. O Pedro nunca ganhou grande coisa no cinema e quando as montagens passaram para a digitalização não sei se acompanhou as mudanças. Para dizer a verdade nunca percebia grande coisa quando falava da sua vida profissional. Sei que tinha alguns amigos nos filmes. Estava sempre disposto a ir com eles por esse Portugal fora fazendo diversos trabalhos ligados às produções cinematográficas.
Mais tarde na vida quando se separou da Maria João conheceu a Sara e com ela teve o Miguel. Este filho passou a ser o motivo principal da sua vida. Andava sempre com o Miguel e ajudava a Sara. Teve um amigo no Andy que apoiou a família nos momentos difíceis. Faleceu no passado dia 12 de maio após prolongada e dolorosa doença que enfrentou à maneira da sua personalidade tentando envolver outros o mínimo possível. Era o meu irmão e sinto a sua falta.

3 thoughts on “Falta-me o Pedro

  1. Estou incrédula João! e não consigo entender. Todos os dias vejo posts do Pedro (ou em nome dele) no Facebook (ainda ontem li) e não me apercebi que tinha partido. Nem através da tua irmã. Peço desculpa, e envio daqui um grande abraço, muita força, de quem já passou pelo mesmo por duas vezes. Que o Pedro possa descansar em Paz e espero, muito sinceramente, que tenha lido mal o que acabei de ler. Um beijo amigo

  2. Olá João. Em miúdos fomos companheiros na praceta do Junqueiro. Cada um segue o seu rumo e perdi o rasto do Pedro, ou melhor, perdemos o rasto um do outro. Normal. “É a vida”. Agora que tomo conhecimento do que se passou vem-me à memória a grupeta que por lá andou … o Alvarinho, o Carlinhos, o Tójó, os irmãos Bordino, o Xaninho, o Pedro Serôdio,… e outros mais. Destes, alguns já nos deixaram antes de tempo. Agora foi o Pedro. Que pena.
    Grande abraço.
    João Simões

    • Olá João Simões, é… como dizes alguns já nos deixaram e agora foi a vez do Pedro 🙁 Ficamos todos tristes e a nossa infância/adolescência mais vazia. Resta-nos os que por diversas vias vamos mantendo contacto ainda que à distância, Do “teu” grupo (que era o dos meus irmão e o meu) ainda andam muitos por cá, felizmente. A vida nos afastou, é normal, mas a internet nos aproximou, felizmente. Um beijinho para ti, que não sei se te lembras de mim. Ao João Pinheiro, também envio um beijinho, e já “falei” com ele por outras vias.

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