A Urgeiriça revivida

Urgeirica

A pequena localidade mineira da Urgeiriça e os meus primeiros anos de vida aí passados foram revividos a semana passada. A mina está encerrada desde 1992 mas tem um historial de 80 anos durante os quais milhares de trabalhadores extraíram 1,6 milhões de toneladas de mineral utilizável ( especialmente Uranio) e deixaram ainda mais 2,5 milhões de toneladas de resíduos radioactivos.

Os meus poucos anos na Urgeiriça datam da década de cinquenta quando o meu pai João Manuel Pinheiro depois de completar estudos de engenharia em Inglaterra obteve trabalho na empresa que explorava a mina. Isto significou que a minha mãe Pamela Ineichen e eu passamos ps primeiros tempos de vida em Portugal nesta pequena aldeia do norte no distrito de Viseu. Tambem foi nesta altura que nasceu o meu irmão Pedro (1954).

As fotos deste periodo que tenho no meu album apresentavam-me a brincar à volta da casa ou fazendo piqueniques ou mesmo em periodos na praia. Tinha um triciclo, lembro-me da existencia de pintos de algum galinheiro e não muito mais de memórias me posso gabar desses dias em que dava pelo nome de Titi. A praia, vim a saber, por meu pai era a Ericeira para onde algumas mães íam com os filhos num apartamento alugado com os maridos a juntarem-se aos fins de semana.

A responsabilidade deste memorial todo foi o filme produzido por Ramsay Cameron (Urgeiriça cem anos) relatando a história da mina. Filme este que demontra ao espectador a importancia estratégica e económica da mesma. Muitos aspetos interessantes estão relacionados com a politica a nível mundial durante e depois da segunda guerra mundial, o envolvimento do ditador Salazar nesta verdadeira “ mina de ouro”. Tambem a primeira coneção entre a descoberta do mineral Rádio e de Marie Curie. Tambem a importancia do conhecido hotel Urgeiriça.

As enormes quantidades de Uranio encontradas e necessárias para os programas de armas nucleares pôs um foco único nesta pequena localidade que talvez ficasse de outra forma mais esquecida. O filme tem versões em portugues e ingles e encontra-se com facilidade na internet em https://vimeo.com/158161181. Vejam-no!

O pai de Ramsay Cameron , James, era engenheiro chefe nas minas quando lá viviamos. Fiquei a saber que é a irmã dele Cairine quem aparece na foto que aqui publico. Tambem fiquei a saber que a outra menina é a Dorothy Bennett com quem apareço noutras fotos. Os Bennetts eram outra familia que os meus pais conheciam e com quem se davam.

A importancia de escrever um blogue ficou mais uma vez provada.

6 thoughts on “A Urgeiriça revivida

  1. Exmo sr,

    vivi na Urgeiriça entre 1976 e 1981/82; por isso foi com uma enorme carga saudosista que li o que escreveu e as imagens que publicou .. Foi bom voltar um bocadinho ao passado.

    Atenciosamente,

    Frederica Santos

  2. Viva, João Pinheiro!
    Cheguei ao seu blog por acaso, caindo em “Urgeiriça revivida”.
    Vivi na Urgeiriça de 1955 a 1961. Aí fiz os primeiros anos de Escola Primária.
    Creio que fomos colegas de classe.
    Eu também tinha um triciclo, e estou quase certo que, lá num Dia de Santa Bárbara, “nos defrontámos” em pista!
    Desejo-lhe as melhores venturas.
    Atenciosamente,
    Daniel Carvalho

    • Olá Daniel! Estimo em saber. Na realidade não tenho a certeza quando fomos para Lisboa mas há fortes possibilidades de ainda estar na Urgeiriça pelo menos em 1955.
      Da tal corrida não tenho memória mas se participei não me terá saído muito bem pois não segui carreira de corredor sobre rodas. Abraço

  3. Boa noite João Pinheiro.
    Apenas uma correcção. O Dr. James Cameron, não era engenheiro, tal como o Dr. John Benette, eram geólogos.
    Conheci muito bem o seu pai, Eng.º Pinheiro,do meu caríssimo amigo não me lembro, devia ser muito pequeno, e eu só tenho 77anos.
    O seu pai era um um homem muito culto, tenho dele boas recordações; eu era jovem e durante uns anos fiz teatro amador no grupo da Casa do Pessoal das Minas da Urgeiriça, ele era o encenador.
    No dia 3 de Dezembro de 1961 representámos a ultima peça, tinha por titulo C.P. R. ( Casa Para Repouso). Depois disso tudo mudou.
    Não resisto em contar-lhe algo sobre mim. Eu era um jovem que amava a aventura, gostava do perigo, da acção, correr mundo. Nunca pensei viver mais de 35 ou 40 anos, afinal o meu fado foi completamente diferente, dos meus companheiros de juventude na Urgeiriça resta o Ricardo Felizardo que ficou invisual e não pôde sair, 76 anos, e eu um homem sempre saudável com 77 anos, um caseirão empedernido.

    Um abraço

    • Caro Sr.Francisco Cardoso
      Muito obrigado pelas suas informacoes que desconhecia. Que o meu pai tivesse sido encenador do Teatro amador deconhecia mas como ele tinha em crianca sido ator teria captado algumas ideias. Eu tenho menos 10 anos que voce por isso é essa relacao. Despontou-me a curiosidade de saber sobre a sua vida mas talvez queira utilizar este espaco para o fazer. Grande abraco e novamente obrigado.

  4. Caro João Pinheiro.

    Falar da minha vida é recordar as as Minas da Urgeiriça, e de lá não tenho boas recordações; porque tinha de falar da pobreza, da repressão e das perseguições.
    Era falar-lhe de injustiças e devassa da vida privada dos operários e mineiros, das informadoras e dos informadores que traiam os companheiros a troco de uns trapos que já não serviam aos filho de director.
    Muitos leitores dos saits referentes às Minas da Urgeiriça, comentam que lá foram muito felizes, e, as saudades que sentem desses tempos idos, não me associo a eles.
    Parece um paradoxo, mas a primeira vez que fui feliz foi na guerra colonial na Guiné. Aí conheci os meus camaradas, criamos um espírito de grupo que ainda perdura, Ninguém Fica Para Trás era e é o lema. Prefiro não falar mais disso, porque muitos do meus irmãos de armas já partiram.
    João recorde o seu pai com orgulho, era um homem bom, era um homem muito culto e a cultura nas Minas da Urgeiriça não era um bom cartão de visita.
    Lembra-me o meu filho, Nuno Cardoso, encenador, actor e agora director artístico do Teatro Nacional de S.João.
    Deixe para lá, tonteiras de idoso.

    Um abraço.
    SF/ Francisco Cardoso.

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