A Bua

Votre beauté

A maior parte das pessoas que tiveram uma avózinha sabem do que estou a falar. A minha era a Bua. Aos meus olhos era uma pessoa excepcional. Nascida no norte e lá criada acabou por vir para Lisboa. Quando a conheci (por motivos óbvios) já depois do meu nascimento em 1952 vivia na Rua Sampaio e Pina logo ali ao pé da Artilharia 1 e com vista para um dos muros do Liceu Maria Amália.

 No apartamento enorme do r/c onde vivia sózinha passava quase o tempo todo no quarto da frente. Num dos quartos interiores havia boiões que eram para ser enchidos por cremes de beleza que fazia. Tambem escrevia no Século- Modas e bordados- sobre  temas que interessavam as senhoras. Sabia francês e era naquelas revistas “Votre Santé” e “Votre Beauté” que se inspirava para tudo o que fazia e que ocupava o seu maior interesse. Admirava imenso a coqueluche do cinema francêss durante aqueles anos -a Brigitte Bardot! A minha avó gostava de animais especialmente dos felinos e de crianças. Penso que não tinha muita paciencia para os adultos!

 Na casa dela havia sempre qualquer coisa que enchia de curiosidade um menino tão pequeno. Um dos pontos altos do dia era a passagem do camião do lixo com toda a atividade relativa ao acontecimento como o despachar e triturar daqueles lixos organicos.A porteira- a Sra. Zulmira- tambem aparecia e tinha os seus franguitos e coelhos no pátio traseiro.  Depois haviam coisas que chamavam a atencão e que tinham que ver com a alimentação da Bua. Era lacto-vegetariana. Ía comprar, tambem em boiões de vidro, numa mercearia logo ali ao pé, os yoghurtes que nessa época ainda eram uma raridade. O leite era Vigor… Em plástico é que não vinha nada!

 Logo ao virar da esquina estava o meu primeiro barbeiro. O penteado era sempre o mesmo!À máquina de tosquear dos lado e atrás com a respectiva cócega insuportável e depois a poupinha à americana!

 

As três covinhas

berlinde

Este texto fica dedicado ao meu irmão Pedro que muito provávelmente não o lerá já que não aderiu muito nem à internet nem às mídias sociais!

O Pedro Pinheiro foi um grande jogador de berlinde jogando quase em frente a nossa casa e passando horas de cócoras no constante aperfeiçoamento do jogo do bilas. Isto durante um período de tempo antes de ter passado para outras atividades como salvar e tratar de cães abandonados ou dos negócios de bichos da seda onde tambem teve grande sucesso!

Como irmão mais velho andava sempre de olho nele e preocupado com o que fazia. Que não se metesse em confusões nem que fizesse coisas perigosas. Era protegido o que nem sempre terá sido muito apreciado por ele. É a sina dos mais velhos e dos mais novos, que se repete.

Passo agora a transcrever do Wikipedia a variante de jogo do berlinde com as três covinhas que se jogava na Praceta lá por 1965. Às vezes apareciam uns sujeitos maiores e “abafavam”, esferas, americanas,leiteiras, olhos de boi ou o que lhes apetecia…

“Três covinhas – Numa linha recta imaginária, fazem-se 3 covas na terra, de aproximadamente um palmo (de criança), que distem entre si um passo grande ou salto (de criança). O jogo começa com os jogadores em pé, a lançarem as bolicas, um de cada vez, de uma cova para a mais distante. Aquele que ficar mais perto do búlico, ou aquele que conseguir acertar dentro do búlico em primeiro lugar, começa. O objectivo é fazer um percurso de ida e volta e terminar no bulico do meio (entrar em seis bulicos). Para fazer o percurso o jogador pode acertar numa bolica de um adversário e vai directamente para o bulico seguinte, ou tentar acertar na directamente no próximo bulico, se conseguir, tanto num caso como no outro tem o direito a jogar outra vez. Se um jogador tiver a sua bolica dentro de uma cova ninguém lhe pode acertar. A partir do momento em que o jogador chegar ao sexto bulico(chamada mata), se acertar na bolica de um adversário este perde. Um jogador que tenha atingido a quarta cova (o meio pilas), pode acertar num berlinde de um jogador que já tenha conseguido chegar à sexta cova (o mata) sem perder. Sempre que um jogador que tenha atingido “o mata” acertar noutro berlinde (excepto se este estiver dentro de uma cova), “mata” esse jogador e continua o jogo até só haver um só jogador. Percurso e nomes das covas – Primeira, segunda, terceira, “meio-pilas” (quarta cova), “pilas” (quinta cova) e “mata” (sexta cova).”

The Swedish Crown Prince

tramp restaurant

I have been giving some accounts of my intensive but short career as a waiter at Tramp in Jermyn Street. This incident is worth telling for many reasons, but mainly because of the incredible number of coincidences related to it.

The DJ at Tramp was Cyril Hines, an Irishman of whom I did not know much. One evening he came to me rather excited and asked if I knew who I was serving. I didn’t…It was a party of some six or seven people, they had ordered champagne!

He went on.- You’re serving the Crown Prince of Sweden, man! That I thought was interesting considering Mona , my girlfriend was also Swedish. Wait until I tell her, I thought to myself.

Cyril’s knowledge of the world started to impress me. Myself, I have to admit, wasn’t sure of the form of government in Sweden and much less recognizing any people in the Swedish Royal family. So I had to ask. – How do you know this, Cyril? Simple he said -My wife is Swedish and I have lived there! Well, that was an explanation I could buy. I told him my girlfriend was also Swedish. We did not fall in the arms of each other but we had found something in common. -Where does your wife come from in Sweden, I wondered?

-Well, Cyril said, you wouldn’t possible know it- It’s just very small place in the north…-And the name is? –Sundsvall, he said!

So there you have it! His wife Irene and my girlfriend Mona came from the same town. Cyril was well known in Sundsvall because he had been working in several discos including the most popular one- Marina!

As to the illustrious guests I did tell them that my girlfriend was Swedish and they showed genuine interest as they quietly and orderly enjoyed their evening at Maximus in 1972.

Earl’s Court, mon amour.

 earls court station

It’s a fact. Earl’s Court was a great place to be in the beginning of the seventies. Near to everything and with the underground station serving the most important lines- District and Piccadilly- who needed a car? Plenty of restaurants, a bookstore, Wimpy bars, Pizza Hut and other fast food giants, launderette and Drycleaners, Pubs, in short, the ideal place for the common bachelor with little money to live his adventures.

Some excitement was at times provided when travelling without a ticket on the tube. If caught we were tourists and once when Gilberto Matos was stopped in Piccadilly and asked to produce a ticket he did not have, and pressed to answer where he came from- the answer popped out as Portugal instead of Earl’s Court! Great times, with lots of laughter and perhaps not as carefree as one would like to remember it today!   We were, in short, on our way somewhere but not quite sure what it would be.

The reader of my blog has been able to follow a period of my life between 1952 and 1972. Twenty years of memories that I try to recall and share in a way that others might find interesting. I have tried to keep faithfull to my original idea to keep texts short and keep them coming. Up to today I have published 95 texts and they have been viewed 4130 times. Most of the views are from Sweden (1570) tightly followed by Portugal (1447), UK comes third with (386). I have hits from 41 countries. I have no idea how frequent people visit this blog or who they are, unless they make comments, but I wish to express to all, my thanks for looking in!

A francofonia em Portugal

Francoise

Relembrando a década de 60 e a música,a que gostávamos de ouvir, muito especialmente em disco, era francesa! É importante não esquecer, de facto, que a cultura francesa ocupava em Portugal um papel de bastante destaque. Basta lembrar que na escola e passada a 4ª classe era o francês que aparecia como primeira lingua estrangeira! Éramos muito mais francofones do que anglofones!

Felizmente para nós hoje, é fácil por intermédio da internet aceder a quase toda aquela música que pensávamos não mais podermos escutar. Eu, por exemplo, encontro quase tudo no Spotify. Mas naquela altura o gira discos era um móvel e quando era avançado podiam-se meter vários discos que iam caindo automáticamente, quando o braço chegava ao fim de um disco, para recomeçar noutro!

O meu primeiro contato com a música francesa foi por intermédio do interesse que tinha Alexandre O’Neill por alguns grandes nomes dessa época. Enumero especialmente dois que se escutavam na Eng. Miguel Pais muitas vezes. O Yves Montant e o Gilbert Bécaud. A “Nathalie” do Bécaud era não só musicalmente e vocalmente fantástica mas continha um texto que na ditadura era quase subversivo, pois tratava de uma guia russa em pleno Moscovo!

Uns anos mais tarde apareceram novos nomes da onda de rock e pop que tambem acabariam por fazer parte das nossa coleções discográficas agora adaptadas ao gira discos portátil!

Quem se esqueceu da Françoise Hardy e do seu “ Tous les garçons et les filles”? Esta música já apareceu no tempo da Praceta de Carcavelos! Depois tínhamos o Adamo, a Silvie Vartain e o Johnny Halliday! Vive la diférence!

O internato (2)

Pedro Nunes

Uma grande preocupação que me apoquentava quando estava internado era não saber nada dos nossos pais. Às vezes passavam-se o que me parecia períodos muito longos em que não apareciam. Quando há separações nas famillas e há menores implicados são quase sempre estes as maiores vitimas! Isto a propósita de ter aparecido no Valsassina na condição de aluno interno.

Em relação ao Colégio ele fica situado no topo dum monte. Na sua parte mais velha e passados os portões, encontravam-se os edificios mais antigos. Era uma casa senhorial na chamada Quinta das Teresinhas. No dia 27 de Novembro de 1948, Frederico César de Valsassina compra a Quinta das Teresinhas pela quantia de 1.200 contos.

Quando fiz a primária tinha as aulas num pavilhão que ía dar a uma sala maior em que faziamos a ginástica. Mais para baixo encontrava-se o edificio onde terei feito o primeiro ano do liceu e de onde me lembro do prof. Nuno Crato que tinha  a particularidae de fumar nas classes e o arquitecto Bairrada com as suas réguas de correção de maus comportamentos. Muitoas vezes me aqueceu a mão com a sua Ramona ou a Pantera Negra. A maior parte das vezes sem perceber porquê…Talvez alguem se recorde dos professores de Lingua e História Pátria, Francês e Ciencias Geografico-Naturais?

È bom recordar que os edificios (modernos e antigos) apenas ocupavam uma área restrita da totalidade da quinta que albergava o Colégio. Lá para baixo haviam ribanceiras florestais onde alguns dos rapazes mais velhos construíam esconderijos que eram como “cavernas secretas”. Nós, os mais novos, tinhamos curiosidadae em saber o que por lá se passava.

Uma memória que associo à condição campestre do Colégio era a enorme preponderancia de pirilampos que às vezes apanhávamos e levávamos para as camaratas no intuito de criar alguma excitação na alttura do “recolher obrigatório”.

Bianca and April

tramp lounge

Two of the owners of the Tramp’s club in Jermyn Street , Mr. Gold and Mr. Lerman, were often present and whereas Gold played the host, Lerman and wife were more on the socializing role. Lerman was married to actress and writer Jackie Collins and she was, at least in 1972, what we would call a regular.

In the kitchen there was Brazilian Willy and one of the headwaiters I recall was Italian Franco who could make delicious spaghetti.

At one time  I was in charge of the lounge which was directly at the bottom of the stairs. This meant I could see who would come in and the way in which they would be greeted by Mr. Gold. There probably was a difference between a rather over refreshed sex operated April Ashley and the beautiful and eye catching Bianca Jagger, at that time married to Mick.

The whole idea of Tramp was for the guests to feel completely relaxed in that atmosphere. There was little risk that someone would ask anyone for an autograph and as to dress code it was up to each and every one to come as they liked even if the two I have mentioned above, did have the capacity to draw attention to themselves due to their choice of fashion creations.

The music was not what I was used to, from the soul and Motown influenced Maximus. The choice was very much left to the professional tastes of contracted DJ. And that was Cyril Hines!

apriljagger      April and Bianca

Members only

tramp entrance

I was employed at the Tramp Club in Jermyn Street. This club had been opened in 1969 by Johnny Gold, Oscar Lerman and the third owner was a Bill Ofner.  I have come to understand that many in the staff are still there, even though the ownership has changed. The concept has been kept and I presume it is as hard to get in now, as it was back in 1972 when I worked there. At the inconspicuous door you would have found Shah, the tall and handsome Pakistani doorman. But the rules were clear! In order to get in you needed to be accompanied by a member or be one yourself. Many people prepared to pay a fortune to get in had to turn back at the door.

If we are to touch the subject of money and we should, I would say that I received a salary while working at Tramp’s. It wasn’t very high but our rather good salaries were produced by the addition of handsome tips, that were divided at the end of each week, after a model, with the manager getting most then the head waiters and finally the rest of the staff. When bills were paid the tips would be directly placed into a box and this was the reason why we were not to wear trousers with pockets.

It was exciting, each evening, to know what celebrity would turn up and I can admit that some evenings there were very well known people there and that this was a motive of curiosity for the staff. “My first celebrity” was Harry Belafonte, but many would follow and I shall in future blogs tell some more episodes of interest connected with this period and what I can recall.

O internato (1)

colégio valsassina

Eu e o meu irmão Pedro fomos alunos internos do Colégio Valsassina! Significa isto que guardamos memórias únicas e pessoais desse período da nossa vida. Se o Pedro ler estes textos poderá eventualmente contribuir com as suas memórias. Fomos lá parar assim de repente… Os nossos pais tinham problemas…Estavam em processo de separação e a solução encontrada foi pôr-nos no Colégio!

Éramos muito pequenos teriamos uns 10 a 12  anos nessa altura! Dormíamos numa camarata enorme e foi evidentemente com bastante estranheza que nos adaptámos às novas condições. Havia disciplina própria, horários para cumprir. Novas comidas para comer no refeitório do Colégio onde me recordo que comia o que ma davam sem protesto mas que não gostava duma salsicha tipo paio às rodelas, que continha uns grão de pimenta que não eram para o meu paladar!

Nas camaratas, após o ritual das lavagens de dentes, e uma vez deitados, imperava o silencio! Nunca tinha vivido assim tão perto de tantos desconhecidos e recordo-me uma das primeiras reflexões que fiz foi o da diferença de técnicas de lavagem de dentes que havia. Um dos miúdos por exemplo fazia enormes quantidades de espuma com que enchia a boca!

Os alunos do internato tinham diferentes idades. A maior parte eram mais velhos. Não me recordo de alguma vez ter sido maltratado por esses rapazes. O sentimento acabava por ser aquele duma grande familia. Uma vez fiquei muito impressionado quando fiquei um fim de semana na escola e puseram um gira-discos num local onde estavam umas mesas de pingue-pong. Vários rapazes mostravam então como se dançava o Twist. Foi bem divertido e eu admirava-os imensamente.

O cinema!

 joselito           marisol

Uma das grandes alegrias que se me proporcionavam quando era pequeno era ir ao cinema! Tenho para com o cinema uma relação muito positiva e que me acompanhou durante muitos anos da minha vida!

Além do meu pai que trabalhou durante décadas ligado ao cinema tambem o meu irmão Pedro Pinheiro trabalhou em montagem e em equipas de produção onde até chegou a entrar em filmes.

 Quando era mais pequeno íamos ver filmes para crianças, especialmente os do Walt Disney. Eram filmes de desenhos animados, a cores e bastante assustadores… A bruxa má da Bela Adormecida, por exemplo, apoquentou-me e perseguiu-me em tudo o que eram corredores!

Lembro-me que costumava ir com o Zé Carlos Torres, a mãe dele e a tia e que o grande Cinema Monumental na Duque de Saldanha era a meta mais popular para as nossas matinés.

Mais tarde aparecerem filmes musicais (especialmente ingleses) que faziam a delicia dos pequenos espectadores. Estou especialmente a lembrar-me do My Fair Lady e do Sound of Music. O Mary Poppins era tambem um grande favorito da minha irmã- a Joana- que sabia todas as canções de cor e com o seu grande conhecimento de inglês nos podia até dar explicações.

O que talvez pareça mais raro para os dias de hoje foi que o cinema em espanhol teve muito sucesso em Portugal. Filmes mexicanos com o Cantiflas, e muito principalmente os filmes espanhóis de levar as lágrimas aos olhos protagonizadas pelo Joselito que cantava como um rouxinol ou a linda Marisol pela qual todos os rapazes andavam apaixonados.

Há muito para contar dos filmes e televisão que foram parte da minha vida infantil. Mas o resto virá mais tarde!

monumental