O beco sem saída

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Em Portugal sempre houve muita pobreza. Gente pobre, até paupérrima. Em todas as estatísticas podemos tristemente verificar que Portugal teve uma das sociedades mais desiguais da Europa. E continua a ter!

Quando nos mudámos para a Rua A às Amoreiras, fomos para um beco sem saída. Mas fomos para um prédio novo que ficaria e ficou mais tarde, no que hoje é a Avenida Conselheiro Fernando de Sousa. Uma boa parcela dos terrenos que ficavam entre a Rua A e o quartel de Infantaria 1 estavam divididos e separados por muros de pedra ou cercas de madeira. Um desses lotes seria utilizado pela Camara para  armazenar pedra para a construção de pavimentos. Eram pedras cúbicas de granito.  Era nesse espaço, onde ainda restava um muro de pedra, que uma familia numerosa se tinha instalado.

Era gente que teria vindo do Norte, provávelmente das Beiras. Os filhotes eram pequenos e os rapazes jogavam à bola na rua como nós, quase sempre descalços.A mãe era vendedora ambulante daquelas que ainda se ouviam apregoar, “Quem quer figos, quem quer almoçar?”. O pai era calceteiro e transportava um maço com que assentava as pedras de calcário com que se fazem os nossos passeios.Ouvi dizer que sofria de tuberculose. Um dia bateu na mulher, maltratou-a e teve que se chamar uma ambulancia. .

Uma das crianças teria uma pequena deficiencia mental e um dia pôs a barraca em que viviam a arder. Isto foi o que constatou…A barraca era montada com restos de materiais como tábuas e cartão e levava telhado de lata. O chão era a terra batida sobre a qual se erguia a frágil contrução, que fazia do muro de pedra, uma das paredes.

 Um dos miúdos foi para nossa casa. Deu-se-lhe banho e ficou a dormir lá. No dia seguinte saíu feliz para a rua, lavado e penteado com roupas novas e a tocar uma gaita de beiços que tinha sido minha. Encontrou o pai sentado sobre os escombros da casa destruída. Uns dias depois tinha já erguido nova barraca.

Fiquei muito orgulhoso do que os meus pais fizeram nessa noite dramática do beco sem saída!

Assim como do beco se fez uma avenida espero que os membros mais novos da familia tenham conseguido um futuro melhor.

2 thoughts on “O beco sem saída

  1. Wish I could read and understand Portuguese (I recognise alot of the words but haven’t a clue what they mean!) – the pictures of the colsadas (I know that is the wrong spelling, but it’s how I say it) are very familiar to me. We have a holiday home in the Algarve with these ‘colsadas’ outside and along all the pavements – they are part of the character of Portugal

    • For sure Jo! The article is about a very poor family that lived across the road from us in Lisbon. One day the whole house burned to the ground. These people were the poor of the poorest and it was believed that one of the children had put it ablaze. They were left homeless and one of the kids was taken in by us for the night. The father was calceteiro so he worked in the calcadas. (the c has a cedille under but I do not know how to make it directly on the blog).

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